sexta-feira, dezembro 28, 2012

Defesa da alegria


Defender a alegria como uma trincheira
 defendê-la do escândalo e da rotina
 da miséria e dos miseráveis
 das ausências transitórias
 e das definitivas

defender a alegria como um princípio
 defendê-la do pasmo e dos pesadelos
 dos neutros e dos nêutrons
 das doces infâmias
 e dos graves diagnósticos

defender a alegria como uma bandeira
 defendê-la do raio e da melancolia
 dos ingênuos e dos canalhas
 da retórica e da parada cardíaca
 das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
 defendê-la do fogo e dos bombeiros
 dos suicidas e dos homicidas
 do descanso e do cansaço
 da obrigação da alegria

defender a alegria como uma certeza
 defendê-la da ferrugem e da sarna
 da célebre pátina do tempo
 do relento e do oportunismo
 dos rufiões do riso

defender a alegria como um direito
 defendê-la de deus e do inverno
 das maiúsculas e da morte
 dos sobrenomes e das lástimas
 do acaso
 e também da alegria

- Mario Benedetti
(tradução de Fabiano Calixto)

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