sexta-feira, dezembro 07, 2012

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Saberás tu ainda quem te acena
a seis ou sete vidas de distância
em gritos cujo sangue já não bebes
quando as vozes são ecos de outras vozes,
e os rostos espelhos de outras faces?
Saberás por acaso qual a cor
dos sonhos onde sempre te abrigaste
enquanto vão esfriando devagar
à espera de outros sonhos que entrevês
quando entras cego e surdo numa igreja
já sem deuses nem anjos que te falem?
Saberás porventura quem te move
a bússola dos passos desse corpo
entre a lama dos nomes esquecidos
e as cinzas que guardaste nessa urna
a que chamas agora coração?
Saberás tu enfim quem te procura
no sim-ou-não da vida ainda acesa,
no silêncio das frases que não dizes
ou na descarga eléctrica de um nervo
quando o rosto da noite se faz dia?

- Fernando Pinto do Amaral
in Paliativos, Língua Morta

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