sábado, dezembro 01, 2012

As noites de Ossip Emilievic Mandelstam


1

Branco branco branco branco
branco branco branco branco
branco branco branco branco


2

Quem plantou um melro na minha garganta?
Quem mandou pôr um ninho de navalhas
na minha garganta, revestido com apitos de pássaros,
festa de facas até à morte?


3

Eu não tanjo a lira, mas a corrente;
Como correntes chocalham as minhas cordas vocais,
ou como as estrelas lá em cima,
mundos forrados de ferro a gravitar,
terras agrilhoadas,
como o meu coração.


4

Ó infinito, Sibéria do mundo,
meu cego pelourinho


5

A neve
é a lua
do inverno


6

Eu, o filho único
do judeu rico de petersburgo,
nascido árvore,
porque agora sou pedra, noite de rochedo.


7

E ensino novas palavras
e árvores cantantes à fala humana,
ensino as aves ao céu…


8

O meu sussurro é uma folha perene,
cresce folhas sem copa, embora atrás de mim
já tudo seja folha morta, tudo sombra,
e como húmus de banha, afundo-me de novo
para trás na minha sombra, eu mesmo sou sombra,
porém: sou a palavra diante da boca,
folha sibilante, sem copa ou árvore,
o próprio caminhar, antes de pés e rodas,
o tempo futuro do que falta…


9

(Que a lua de elmo posto está de vigia.
Olha por dentro de mim e une-se comigo.
Brilha,
sorri de orelha a orelha.)


10

Meu Deus! O meu olho é o país do morcego.
As minhas pestanas agarram-se
pelos pés,
como a noite mesma.
Devolvam-me ao menos
as forcas
do sol!
A luz!


11

Branco branco branco branco
branco branco branco branco
branco branco branco branco


12

Num casaco imundo, qual manto real,
de cabelos ruivos, como a minha coroa,
– “General, general!” – gritam-me
as crianças na rua, páro.
Elas são as minhas divisas, os seus sorrisos
os meus galões, as suas mãos a minha espada,
os seus nascimentos as medalhas
do meu futuro.


13

Velas, os álamos esvoaçam como velas,
os meus poemas esvoaçam enchendo-me a garganta,
como folhas brancas as minhas manhãs enegrecem,
as faúlhas do silêncio ficam pretas e com cãibras.

– A escrita arde negra como o sangue.


14

Murmura branca, como um rosto de silêncio.
Branco branco branco branco.


15

“Quando escrevi isto, o céu estava limpo.”

- István Bella 
(retirado daqui)

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