1
Branco branco branco branco
branco branco branco branco
branco branco branco branco
2
Quem plantou um melro na minha garganta?
Quem mandou pôr um ninho de navalhas
na minha garganta, revestido com apitos de pássaros,
festa de facas até à morte?
3
Eu não tanjo a lira, mas a corrente;
Como correntes chocalham as minhas cordas vocais,
ou como as estrelas lá em cima,
mundos forrados de ferro a gravitar,
terras agrilhoadas,
como o meu coração.
4
Ó infinito, Sibéria do mundo,
meu cego pelourinho
5
A neve
é a lua
do inverno
6
Eu, o filho único
do judeu rico de petersburgo,
nascido árvore,
porque agora sou pedra, noite de rochedo.
7
E ensino novas palavras
e árvores cantantes à fala humana,
ensino as aves ao céu…
8
O meu sussurro é uma folha perene,
cresce folhas sem copa, embora atrás de mim
já tudo seja folha morta, tudo sombra,
e como húmus de banha, afundo-me de novo
para trás na minha sombra, eu mesmo sou sombra,
porém: sou a palavra diante da boca,
folha sibilante, sem copa ou árvore,
o próprio caminhar, antes de pés e rodas,
o tempo futuro do que falta…
9
(Que a lua de elmo posto está de vigia.
Olha por dentro de mim e une-se comigo.
Brilha,
sorri de orelha a orelha.)
10
Meu Deus! O meu olho é o país do morcego.
As minhas pestanas agarram-se
pelos pés,
como a noite mesma.
Devolvam-me ao menos
as forcas
do sol!
A luz!
11
Branco branco branco branco
branco branco branco branco
branco branco branco branco
12
Num casaco imundo, qual manto real,
de cabelos ruivos, como a minha coroa,
– “General, general!” – gritam-me
as crianças na rua, páro.
Elas são as minhas divisas, os seus sorrisos
os meus galões, as suas mãos a minha espada,
os seus nascimentos as medalhas
do meu futuro.
13
Velas, os álamos esvoaçam como velas,
os meus poemas esvoaçam enchendo-me a garganta,
como folhas brancas as minhas manhãs enegrecem,
as faúlhas do silêncio ficam pretas e com cãibras.
– A escrita arde negra como o sangue.
14
Murmura branca, como um rosto de silêncio.
Branco branco branco branco.
15
“Quando escrevi isto, o céu estava limpo.”
- István Bella
(retirado daqui)
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