terça-feira, dezembro 11, 2012

-
Ao tempo (segunda década do nosso século) a geração estava lúcida e a desordem nos poderosos. Nada mais era possível que gritar. Admirável tempo para começar. Tudo já tinha sido dito e redito, lido e treslido! “As frases que hão-de salvar a humanidade já tinham sido escritas todas, só faltava uma coisa: salvar a humanidade”. Do passado permanecia apenas a eterna esperança do eterno presente. O bem conhecido grito da Poesia. O grito que não pôde ainda senão gritar. O grito mais remoto do mundo. Mas, “oh desgraça! Toda a mística morre política” (Peguy).
Aos que gritam, a vida cala-os. Parece lei. Porquê? Parece não haver porquê. Ouve-se calarem-se: deixou de se ouvir o grito pessoal!
Em Portugal, no nosso século, dois gritos de Poesia se ouviram: Mário de Sá Carneiro e Amadeo de Souza Cardoso. Poesia das letras e Poesia das cores. Grito do verso que é a arte precoce, e grito das cores que é a arte não precoce. Os dois mundos da Poesia actuante em que o protagonista é o autor, e não ficção.
Ceifados ambos. A Mário de Sá Carneiro já não lhe era possível mais, senão o mal-menor da grande obra que sucede e fica àquem, e é sempre quase o grito inicial da espontaneidade. Ele recusa a grande-obra. A Amadeo de Souza Cardoso é a vida que lhe recusa a grande-obra por ele mesmo anunciada em grito de poeta mobilizado “cantor-de-dia na alegria do mundo”. “Amadeo de Souza Cardoso é a primeira descoberta de Portugal no século XX”, escreveu-se a tempo, em vida do pintor.
Havia de terem sido entre nós estes dois gritos de Poesia. Foram eles. Depois deles prosseguiu o grande-frete da Poesia: fazer do antigo o novo, do actual o princípio, o eternamente presente, o constantemente perfectível, até à invejável perfeição de “chegarmos a cada instante pela primeira vez ao mundo”. “Voltar ao fim” (Cesariny de Vasconcellos). Com Amadeo de Souza Cardoso evitou-se ser “Orpheu” apenas mais um grupo de gente de verso. O movimento era unânime e não apenas literário. Se a falência literária do princípio do século era flagrante, a falência das artes visuais não lhe era menor nem muito menos tão recente. “Orpheu” queria denominador comum da unidade de todas as artes. Amadeo de Souza Cardoso, Santa-Ritta Pintor e eu, diante da tábua quinhentista “Ecce Homo” do Museu de Arte Antiga, firmámos o pacto do grande-frete da Poesia: enquanto a Poesia não é. Assim que saímos do Museu fomos cortar os nossos cabelos e sobrancelhas à navalha de barba e assim passeávamos pela capital o remotíssimo grito do silêncio. Amadeo e Santa-Ritta não sobreviveram um ano ao nosso pacto.

- Almada Negreiros
in Surrealismo/ Abjeccionismo, Minotauro

Sem comentários: