sexta-feira, dezembro 21, 2012

A mosca


Sentava-se num caixote de munições
 a ver
 parte da batalha de Crecy,
 os gritos,
 os suspiros,
 os gemidos,
 o ruído dos passos caindo no chão.

Durante a décima quarta carga
 da cavalaria francesa
 acasalou
 com uma mosca-macho de olhos castanhos
 de Vadincourt.

Friccionava as patas uma na outra
 enquanto, sentada em cima de um cavalo estropiado,
 meditava
 acerca da imortalidade das moscas.

Mais descansada foi aterrar
 na língua já roxa
 do Duque de Clervaux.

Quando o silêncio caiu
 e só o murmúrio da decadência
 ficava a pairar levemente sobre os corpos

e apenas se viam
 uns quantos braços e pernas
 contorcendo-se ainda sob as árvores

ela começou a pôr os ovos
 no olho que restava
 de Johann Uhr,
 o armeiro real.

E assim
 acabou comida por um gavião
 que vinha fugido
 do tiroteio de Estrées.

- Miroslav Holub
(tradução de Helder Moura Pereira)

Sem comentários: