Subitamente vamos pela rua
-
Subitamente vamos pela rua, com a solidão burocrática dentro dos bolsos.
É
certamente pela rua que vou. Golfadas de olhos e cabelos e um oboé
silencioso. Desalinho. Vagueia um automóvel onírico. É pela rua. Que
vamos. Que somos acometidos pelas costas. Estilhaçados de inércia.
Poderosos de sexo. Invariáveis.
Desculpem-nos a liberdade dos
suicídios macios nas traseiras dos jardins. Ou os partos dramáticos
enterrados na areia. É tão verde o sol que nos rompe as órbitas. A casa
deserta rodou três vezes.
Com o travesti nocturno da evasão
brincamos facilmente aos pássaros bíblicos. Navio mercante de papel
colado – qual o teu rumo de papel colado? Quando a bússola soçobrou no
lastro do horizonte.
Gritámos com a ambulância exausta. Acenava,
de dentro, um homem morto. E a página de fora de um jornal antigo, do
dia anterior, antigo, insustentável, com fotografias perfeitas e um
eclipse longínquo, na beira do passeio.
Saí de casa ontem. Vou
correr mundo, vou matar-me. Emancipada da noite, livre indoloridamente,
minha angústia despediu-se, lambeu-me as mãos. Somente a flor prometeu
realizar-se ainda. Então parto. Encontrarei o cão das noites líquidas e,
na colcha, um cogumelo letárgico de lua.
Mas a árvore do sol
está suspensa, anémona gigante rebentada de cor. Escorre, aquaticamente,
entre os seios mais pueris e os tapumes e as sarjetas. A flor irrisória
no ventre da rapariga. «violetas, quem quer violetas?» – Meus amigos,
sou pela paz (podem rasgar, sim, podem rasgar os corações a rir).
Como
os comboios passam, só as árvores arrastadas sabem. Enquanto os
comboios passam, as estátuas renascem para a morte. Quando os comboios
passam, a desculpa das calhas paralelas, o perdão dos crimes paralelos.
Se os comboios passam, as pedras castram a liberdade humana.
Sigo
para o cabaré distante. Nasce, ao fundo da sala, qualquer mesa vermelha
entornada na música. A noite é em lâminas. Sentem-se vários animais
febris suspensos dos telhados a tentarem um equilíbrio nos trapézios
eléctricos.
É pela rua que vou. Marinham pelo rio ângulos
coalhados de casa afogada (ala-ala-arriba pelo tejo inundado de farrapos
de almas). Sobre o lodo do rio a ponte floriu, cortou o horizonte em
duas longitudes. De um mastro, a gaivota salpica os homens com sons
claros, e despenumbra-os, de súbito.
Afogámo-nos num ciclo de
vela e de âncora, no rio que corre sem lemes. Arcas de nomes, sumi-vos:
só Rio. Só Homem-Cidade de pedra.
Chove todo o segredo das noites
em goteiras de vento; a pedra da ruína não mói já passado, secou a lua a
chuva aberta das fendas.
Saímos com um relógio ao vivo em cada
artéria. O vento, agudo pássaro sem penas, debicou-nos o cabelo no vago
medo de um grito. E em cada pedra, a decorar um passo, o desafio macio e
inábil duma madrugada caída - do vento, de nós ou de quem? De quem?
A chuva, para quem a quis embalar, foi ovelha com fala de erva e água, um cacto de sonho sugando-lhe os chifres.
Esquecimento
de relógio sem corda. Nascemos a vida antecipada, levámo-la, débil,
para casa, ensinámos-lhes a longa geometria dos vértices, dos fios de
prumo e oblíquas de dia a ranger na chuva.
Chove todo o segredo dos segredos extintos pela rua. À chuva não acontece o possível. Acontece.
Sinto
que posso subir às árvores e colher os ninhos – tenho mãos líricas de ladrão de luas, mãos crucificadas em palcos de tragédia. Espalhar depois
as penas dos pássaros em novelos desfiados. Ser cruel, febrilmente
cruel, colher ninhos, abrir crisálidas.
Nasci ontem do meu amanhã, na certeza de que verei todas as luas cheias. E então as outras vazias – e vazios os ninhos.
Na rua, os estames das luzes enferrujam. Quem pensa ainda em árvores?
Se
fossem dois pontões a avançar para o mar, seria difícil escolher.
Sempre era um mar que se trocava por outro. Assim, fui. Marinheiro
bizarro a abraçar-me, o mar era qualquer rosto incógnito. Como podia o
mar ser o mar que subia na pedra? Estava maré-cheia.
No pontão,
delito pensar, olhar sequer, tomar consciência do mundo. Pelas pernas
subiam-me uns pedaços de ondas imprecisas. E então desejei que me
arrancassem os olhos e os atirassem à água.
Mais real que a asa sonora da gaivota, tinha ido para estar ali, humanizada como um pontão de pedra.
Chegar
ao fim dele podia ser encontrar um começo ao mar. Mas fiquei entregue à
violência dos passos intactos. A pureza do medo e a noite baloiçam. Os
barcos, de cores sexuais amordaçadas pelo escuro, dão-me vertigens.
Chegou um, então, e o pontão de pedra tremeu, sexual também. Doía. Os
barcos vivos eram os mortos da morte. Há sempre um outro cais ausente.
Se eu agora me voltar e for para o meu dia de vida, como me consolarei
da espera inútil? Todas as noites, todas, terei tempo para lá voltar, à
mesma hora, esperando por mim, de pé e assustada?
Narro o sorriso
de areia na boca dos homens, enquanto o sol é um bidon de óleo, aceso,
derramado. À tarde aqueço as mãos nas casas a arder. Na rua, o mesmo
incêndio opaco. O vento com laivos de pedra e sangue. Os animais a ruir.
E as árvores, primeiras a afogarem-se com os náufragos.
A mulher a gritar «Os meus braços». A cadeira alta, enigmática, da sala de espera.
A criança a gritar «Os meus olhos». As raízes a apunhalarem o chão, a quebrá-lo, a revolvê-lo, a criá-lo.
O homem a gritar «Os meus dias». Mais solitária a manhã. Irrompendo.
- Luiza Neto Jorge
in Poesia, Assírio & Alvim
Sem comentários:
Enviar um comentário