No tabaco, no café, no vinho,
na orla da noite se levantam
como essas vozes que longínquas cantam
sem que se saiba o quê, pelo caminho.
Levianamente irmãos do destino,
dióscuros*, sombras ténues, me afugentam
as moscas dos hábitos, me sustentam
a flutuação entre tanto remoinho.
Os mortos falam mais, mas ao ouvido,
e os vivos são mão cálida e tecto,
soma do que foi ganho e foi perdido.
Na barca da sombra assim um dia,
de tanta ausência abrigará meu peito
esta antiga ternura que os nomeia.
- Julio Cortázar
(tradução de José Eduardo Simões)
*dióscuros: gémeos semi-deuses, na mitologia grega.
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