O programa da festa resumia: “Uma mesa portuguesa com certeza.” A
explicação vinha a seguir: “Esta mesa é o marco inaugural, no campo da
literatura, do Ano de Portugal no Brasil. Esses autores farão em seguida
um tour pelo Brasil. Cada integrante lerá um texto curto sobre o
seguinte assunto: o que faz de mim um escritor português? E uns
comentarão o texto dos outros.”
Seria, pois, um debate “automediado”, avisou Ecio Salles, um dos responsáveis da Festa Literária Internacional das UPP’s (FLUPP),
ao chamar João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro, Sandro William
Junqueira, Patrícia Reis e Patrícia Portela, os primeiros cinco (de dez)
“Novíssimos” em que o grupo editorial LeYa investiu para uma colecção e
“tours” de promoção integrados no Ano de Portugal no Brasil.
As UPP’s são as Unidades de Polícia Pacificadora instaladas nas favelas cariocas que a polícia tomou ao tráfico. Inspirado pela FLIP
(Festa Literária Internacional de Paraty, a mais célebre do Brasil), o
jornalista e escritor Julio Ludemir teve a ideia de fazer algo
semelhante nas favelas com UPP’s. Em torno da
ideia uniram-se dinamizadores e intelectuais. Organizaram debates
preparatórios pelos morros com dezenas de escritores e uma antologia de
autores da favela, culminando nesta primeira FLUPP, de 8 a 11 de Novembro.
Ao desenhar o programa, Julio Ludemir contactou a LeYa por causa de
um autor internacional. A responsável do grupo no Brasil, Maria João
Costa, falou-lhe nos “novíssimos” que ia trazer ao Brasil. Ele já queria
mesmo ter portugueses na FLUPP. “A gente
conseguiu pactuar de forma a que inaugurassem a programação literária do
Ano de Portugal no Brasil aqui”, explica Julio ao PÚBLICO.
O cartaz ao lado do palco tem o logotipo da LeYa e os cinco autores.
Representado na plateia por João Pignatelli, conselheiro da embaixada
portuguesa, o Instituto Camões apoia a iniciativa. De que forma?
“Institucional e financeira”, esclarece ao PÚBLICO.
“Apoiamos parcialmente as deslocações dos escritores.” E faz sentido
apoiar um conjunto de escritores de uma só editora? “O Instituto Camões
está a apoiar cinco escritores de uma nova geração. Foi o interesse que
vi no projecto [apresentado pela LeYa ao Ano de Portugal no Brasil].
Achamos que faz sentido trazer novos valores.” Há outros projectos em
avaliação, adianta.
Playboy, Homero, crise
Não havendo moderador, a também jornalista Patrícia Reis (que na
colecção Novíssimos tem “Por Este Mundo Acima”) assume a condução:
“Nenhum de nós se chama Manuel, nenhum de nós se chama Maria, nenhum de
nós tem bigode…” Serão escritores portugueses ou escritores ponto?
“Escritora ponto”, responde Patrícia Portela (“Para Cima e Não Para
Norte”). “A geografia é um acidente. A língua talvez não.” Inaugurando o
estilo que manterá no debate, João Ricardo Pedro (“O Teu Rosto será
Sempre o Último”, Prémio Leya 2012) conta que era “um mau engenheiro e
um mau português porque queria ser brasileiro”, que cresceu “a ver
‘Playboys’”, que nunca pensou que um país que já tinha Tom Jobim, Chico
Buarque e Pelé “ainda tivesse escritores bons”.
Sandro William Junqueira (“Um Piano para Cavalos Altos”) nasceu na
Rodésia, actual Zimbabwe. “Espero nestes dias aqui ter uma consciência
melhor do que é ser português.” O seu romance “pode ser em Portugal ou
na China”, mas a língua é importante. “Dostoiévski é o meu avô. Clarice
Lispector é a minha madrinha de casamento.” João Ricardo interrompe:
“Não. É a minha amante.” Sandro insiste: “Não. É a minha madrinha de
casamento.”
Patrícia Reis passa a palavra a Nuno Camarneiro (“No Meu Peito não
Cabem Pássaros”), apresentando-o assim: “O único entre nós que tem vida
sexual activa porque é o único que não tem filhos.” Pausa. “Como é
contigo, Nuno, português, escritor…?” Agradecendo quanto à sua vida
sexual, ele responde: “Todos os que nascemos ali no rectângulo somos
portugueses, uns por inevitabilidade outros por incompetência.” As duas
Patrícias trocam o papel de moderadoras, para que Patrícia Reis possa
responder também, dizendo que se considera “profundamente portuguesa e
europeia”, embora as interrogações universais da literatura a aproximem
de “brasileiros, americanos ou israelitas”.
Patrícia Portela, que vive em Antuérpia, casada com um flamengo, e
tem uma filha bilingue, diz: “Eu sou russa.” Explica como o seu livro
foi escrito em inglês, no contexto de um espectáculo internacional em
que a única coisa portuguesa era ela. Quando correu mundo, foi melhor
entendido na Rússia. Os russos sentiam que ela lera Púchkin e outros.
E lera.
João Ricardo avança para a tirada António Lobo
Antunes-“wannabe”-da-tarde”: “Uma das que eu mais gostava era a Bruna
Lombardi. Numa novela estava apaixonada pelo Tarcísio Meira. Mas havia
um problema. Ele tinha um tumor na cabeça. Sabiam que a todo o momento
ele podia morrer. E é isso que nos faz escrever. Se calhar vou ficar
aqui num cemitério no Rio de Janeiro. Os escritores anseiam pela
imortalidade. O único que conseguiu foi o Homero. Eu quero ser o Homero
do século XXI. Quero ser lido daqui a 20 mil anos.”
Sandro atenua: “A vaidade é uma resposta. Mas se calhar [escrever]
também é uma salvação.” Nuno confessa: “Admiro o João por conseguir
todos os saltos dialécticos partindo das erecções infantis. Eu sinto que
estou a escrever para que as palavras me entendam. Quando se lê muito,
pensa-se que se tem uma dívida. Quero oferecer alguma coisa.”
Patrícia Portela concorda com Sandro sobre a escrita (“uma
salvação”), evocando a teoria mais interessante da tarde: “O caos, o
mundo é uma consequência de toques mínimos entre corpos, e quando entra
em cena o terceiro corpo tudo pode acontecer.” É também esta Patrícia
que fala, já respondendo à plateia, de como a sua geração é “híbrida”, a
primeira a trabalhar tanto fora, e de como viver fora enriquece a
língua.
A pergunta mais espicaçante vem de Julio Ludemir, o idealizador da FLUPP:
quer que falem da crise, mas os cinco começam por desviar o assunto com
piadas. Sandro acaba por resumir o negro do momento, falando das contas
que tem atrás da cabeça, quando se senta para escrever. “Claro que isso
interfere. A minha energia devia estar canalizada para escrever.” Todos
concordam que a literatura acabará por absorver este momento.
Em 2013, a LeYa quer levar os outros cinco autores “Novíssimos” a
Paraty, em Julho, juntando-se à programação paralela que acontece
durante a FLIP.
- Alexandra Lucas Coelho
(Público, 12-11-2012)
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