morte convencional
dizem que a coisa é assim: a grande sonsa
crepuscular alastra pelas veias,
fogem tacto e olfacto à geringonça
e o gosto, o ouvido, a vista e as ideias.
o cabelo suado, a barba intonsa,
as demais circunstâncias muito feias,
alguma gente em pranto que responsa
num negrume confuso de alcateias.
deitam o olho às jóias, à mobília,
os membros menos tristes da família
e a chuva dá nos vidros grosso açoite.
vai-se em cata da agência à luz das velas
nas páginas abertas, amarelas,
a murmurar: «– não passa desta noite.»
mudinha e quietinha
pé ante pé há-de chegar a morte:
alminha vagabunda, enquanto ofegas
sãoas gotas da vida cabras cegas
na hora escapulida que te exporte.
alguém dirá que ao criador te entregas,
terás um atavio em lenho forte
e um necrológio do melhor recorte:
azar, lampejos, erros teus, refregas.
se da outra vida algum contacto póstumo
acaso se consente então a sós tu mo
dirás depois e se gostaste ou não.
mas se não for assim não ficas mal
mudinha e quietinha. por sinal,
há gente bem pior no panteão.
- Vasco Graça Moura
in Poesia reunida (volume 1), Quetzal
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