imagens delicadas, inflectindo os sentidos nas subtilezas
de i-las cantando como se o verso fosse uma coisa pura,
como se narrar fosse um hálito diferente
cruzado com as coisas. a oposição das coisas. o caeirismo. deus.
eu prefiro a narração. os meus poemas têm cada vez mais
essa tendência perversa de neles sempre acontecer
alguma coisa a alguém num tempo e num lugar.
e se uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa,
isso é uma citação desagradável. é de noite e na televisão
há um programa sobre lenine. tenho tanta pachorra para lenine
como para gertrude stein. quero lá saber do proletariado
e do campesinato e da alice b. toklas. nas fufas
está tudo embalsamado como nos programas
soft-porno da europa comunitária.
mas elas têm sempre uma cor desenterrada
e um cabelo estranhíssimo a acinzentar o prazer.
será mais uma memória lunar de paris na escrita americana?
outra textura cerosa a engrossar-lhes as feições?
a noite cai e é quando sapho medita os seus enervamentos,
eu penso que é de passagem, uma circunstância de rosas
a murcharem, ou de alusões na sua voz ladrada.
afinal só se sabe das que têm algum dinheiro e nunca foram novas.
«está tudo tão diferente, disse ela, os fados não perdoam
e eu vou envelhecendo sem ronsard e sem lareira».
- Vasco Graça Moura
in Poesia reunida (volume 1), Quetzal
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