quinta-feira, novembro 29, 2012

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  Eu meditava absorto, enovelando
os fios do tédio e da tristeza,
quando chegou aos meus ouvidos,
pela janela do meu quarto, aberta
  a uma ardente noite de Verão,
o carpir de uma copla sonolenta,
quebrada pelos trémulos sombrios
das músicas que há na minha terra.
  ... E era o Amor, como uma rubra chama...
- Nervosa mão sobre umas cordas tensas
punha um moroso suspirar dourado,
que se tornava num jorrar de estrelas-.
  ... E era a Morte, de gadanha ao ombro,
passos rasgados, turva e esquelética.
- Tal como em menino eu a sonhava -.
   E na guitarra, ressoante e trémula,
a brusca mão, ao dedilhar, fingia
o pousar de um ataúde em terra.
  E era um pranto solitário o sopro
que lança a cinza ao vento e o pó dispersa.

- Antonio Machado
(tradução de José Bento)
retirado daqui

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