terça-feira, novembro 13, 2012


desenharei uma paisagem, com a autoridade
apenas das coisas vistas;

pedras, arestas, maravilhosos lábios anteriores às palavras,
corpos de arte sem voz, estremecendo, livres


António Franco Alexandre





Meço-me contra as distâncias a que dou
vigor, uns passos frios no rumo desastrado
dos astros parasitas
, enquanto a chuva
sossega o escuro e a terra inteira é imersa
numa melodia de cinzas. Mais um pouco
e serei o cão de cada rua
, revirando
o lixo derramado no vento
com os olhos brilhando de febre.
E falo sozinho como sozinhos falam
os príncipes dementes escondidos
em celas e torres. Destruo a obra dentro
da obra, despeço-me entre o ruído
maravilhoso que nos desfaz o nome
e a presença, até não restar em nós
mais ninguém.

Poderosas linhas tracejadas a néon
lançam um clarão agudo que serve
de farol ao bando de ébrios detectives
esquadrinhando a noite ao serviço do
desejo. Descansam nos cafés cerzindo
pistas, anotações de um vago lirismo.
Velhos caçadores de fábulas diante
de mesas rutilantes. Dedos finíssimos
e sujos de tinta apertando vidros
que sonham, uma luz absorta
entre gestos lendo outros gestos,
e o calão sorvido ou a rima ancestral
que me queima uma folha do caderno.
O longo ritmo da sede e a flor rouca
do sangue aberta no meio de um
bailado imóvel: noite embalsamada
de perfumes
; olhares cuidadosos
estudando legendas de ouro e
silêncio, tacteando o mel desses
sinais que nos transformam
para sempre. Repara no jeito
como protegia nas mãos a chama
que lhe cantava
os traços mais doces do rosto.
Uns restos azuis, o corpo repe-
tido, habituado à voz cega
das canções
que o empurram para a
carne indecisa de outros. Corpos
inacabados que mudam de forma
no escuro, e se beijam como
anjos canibais. Assim, como frascos
de perfume, entornamo-nos em
todos os sentidos
e somos arrastados
para outra noite. O sangue

apertado e o buraquinho roxo em
que sopramos prazer e sombra,
caídos lado a lado, adormecidos
num charco de memórias sem
passado algum. Apenas um sonho cru
onde a luz respira em ritmos de vitral,
lenta e sensível, tocando o ombro
de um deus perdido. Vontade viva
de doer
, filmados uns pelos outros –
quietos, chegados –, num eco redondo,
na perfeita leitura de um manifesto
que deixe claro como de todas as horas
do mundo não engolimos uma só
.
Mas se o guizo da loucura se anima
dentro de nós, não cala a voz das coisas
reais. Estas deliram como nós,
enquanto desenhamos um gesto que
recolha a lágrima na face do abismo.

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