sábado, novembro 03, 2012

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Começo onde a memória dói.
O rosto dos outros o medo
nem sei. Digo isto. De tais coisas
foram feitos os meus dias
puros sons quebrados por sons puros.
Erro rasgão a alegria
máscara, nem é bem isso,
luta, aquela dor.
O terror da gramática leva-me
à segunda pessoa que ninguém sabe
quem és. Sou eu, esta ilusão
onde começa tudo.

Era uma zona de vinha, esteios
e latadas, terrenos interiores com
campos de jogos e ginásios.
A primeira aula a que chegou
esquecido na carteira, nunca soube
quando gostava, gostava. O amor
fazia-me tão mal que mal amava.
No golpe sem sizo dos dez anos
aos olhos que nem me conheciam
logo nesse dia me perdi. Vinha
duma aldeia, não me lembro
como lhe soube o nome,
ia e vinha de bicicleta.
Um boné de palha, uma bolsa de lona,
foi correr aos jogos que eu não jogava.
Li a minha lição já no seu livro
num pátio cinzento sem ninguém.

Na repentina tarde prendeu-se-lhe o cabelo
num botão da minha camisola.
Estava certo, estávamos ambos muito sossegados.
Afastámo-nos dos outros num segredo
numa sala térrea no dia de chuva
nenhum se despiu nunca. Tocava sempre
quase a seguir o fim do recreio.
Detrás dos armários, do desvão de escada.

De olhos esquecidos sigo-me
o corpo, sigo-lhe o corpo, ia
a pé por uma longa rua
olhava o chão o sol batia
nos telhados baixos. Caía sombra
a luz voltava, as nuvens corriam
subiam ao confim onde eu estava.
Vem sem me veres, traz as raquetes
vamos equipar-nos esconder-nos
voltar de novo ali os dias todos,
desordenados, finais como riscos de lacre,
abre uma janela o sol
rompe na cabeça agarrada às mãos
e sem regresso ouvimo-nos partir.

- Joaquim Manuel Magalhães
in Consequência do Lugar, Relógio d'Água

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