terça-feira, outubro 23, 2012

Sinto-me em roupas

Já podes ir-te embora como camelo ou chuva
Sinto-me em roupas de um peso superior ao cansaço
Estou contigo agora deserto neste mundo
Enquanto soa uma risada enferma daquele lado

Se tivesse o prestígio da parede branca a alma
Se um rebanho de moscas sobre mim resvalasse
Dir-te-ia outras coisas falava-te outra noite
Se a morte não fosse tantas vezes lida

Sinto grandes ânsias de morrer alma minha
De viver na noite mais divina do mundo
De ser envolvido nessas roupas rasgadas de horrores
De beijar essas tais que são enterradas em vão

Negras sombras falo-vos com boca amarga e dura
Negras e livres sombras qual pernas de algo maior
Talvez sejais os sinais milenários de uma fenda
Talvez seja Deus quem tanta sombra faz à sombra

No dia de hoje a noite de hoje aflige-me
Queres e não poderias partir por vontade tua
Sinto-me em roupas de um peso superior ao cansaço
Sinto que não sentes coração o que sinto

- Carlos Edmundo de Ory

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