E todos dormem, todos sonham.
Em cada sonho acotovelam-se rostos e corpos –
as pessoas sonhadas são em maior número que nós.
Mas vá lá, não ocupam espaço...
Acontece adormeceres no teatro.
A meio da peça, os olhos fecham-se-te.
Um instante de exposição dupla: a cena
à tua frente é sobrevoada por um sonho.
Então deixa de haver palco, o palco és tu.
Teatro mais honesto não há.
O mistério do diretor de teatro
Esfalfado de trabalho!
Essas constantes novas encenações...
Um quarto de dormir. É noite.
A escuridão do céu perspassa pela habitação.
O livro que alguém deixa cair ao adormecer
continua aberto,
como se ferido por um tiro, na borda da cama.
Os olhos daquele que dorme movem-se,
Leem o texto desprovido de letras
De um outro livro –
Antigo, com iluminuras, breve.
Uma comédia vertiginosa impressa
nos muros dos claustros que são as pálpebras.
Um só exemplar. Disponível só naquele instante!
Amanhã está tudo apagado.
O mistério deste esbanjamento incomensurável!
A obliteração total.Como quando o turista é detido
por suspeitos homens de uniforme –
abrem-te a máquina, fazem avançar o rolo,
deixam que o sol mate as imagens:
do mesmo modo se apagam os sonhos tidos à luz do dia.
Obliterados ou apenas invisíveis?
Há um tipo de sonhar, fora-do-nosso-alcance
Que é contínuo. Luz para outros olhares.
Zona onde pensamentos que rastejam aprendem a andar.
Rostos e figuras são reagrupados.
Seguimos pela rua fora, com gente
à torreira do sol.
Mas outras tantas pessoas ou muitas mais
que não vemos
encontram-se nos prédios escurecidos
que se erguem em ambos os lados.
Às vezes, uma delas acerca-se a uma janela
E deita um olhar a um de nós.
- Tomas Tranströmer
(tradução de Alexandre Pastor)
in 50 Poemas, Relógio d’Água
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