quinta-feira, outubro 18, 2012

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Não sei fazer do cão uma pedra
dura, da alga um jacarandá
mas sei que alguém
maré ou lua
faz isso por eles: Nada cabe em sua cara
súbita, nós é que olhamos de perto, como um insecto
deixa a sua marca
begônia ou magnólia
ou salamandra na lama. Se há asa
houve voo, afirmo —
aqui dois pardais se amaram
antes da minha chegada.
Aqui jogaram meus restos
pentes de terra, livros de cedro
cobertos pela vontade vertical das árvores.

01-99/04-07

*


O chão é a grande pergunta
haver chão
se tudo voa
e quer cantar.

Haver morte e poeira
cobrindo os lábios carnudos
e gozo
nos fios dos cabelos mortos.

Voltar quando partir
parece o impulso da bússula
parece o recado da ave
parece a cartilha do sopro.

06-08/11-09

- Nuno Ramos
in Criatura n.º6

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