quarta-feira, outubro 24, 2012

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Mi cultura increíble
de lobo es que yo tengo
hambre y sed


Carlos Edmundo de Ory


Uma cabeça que se agita como uma
tempestade dentro de casa, e anda
pelos quartos, atira com as portas.
Perdido e a bater com os ossos num
buraco vacilante de obscuridade,
cada um dos meus passos tenta iludir
este quarto imerso em pesadelo
.
Olho em redor e lembro-me daquele
reflexo de sol infantil que a viu
despir-se ali. Sei que hoje se despe na luz
dos outros, mas que diferença me faz
se fecho os olhos e ouço ainda os acordes
pesados do seu perfume. A dor abre
a consciência à memória – prodigamente,
como se abre uma veia
. Embriaga.
E já me levo aos tropeços, insultando
os sombrios deuses da casa.

Sento-me, eu e uma lâmpada, nus.
Meu foco tenso e esta mão suja e bestial
que escreve no ar tremulamente a minha
dolorosa transformação,
forçando palavras a perderem o juízo.
Sobre a mesa do passado repito este
encanto do presente
, trabalho
com os pássaros, a sua música restrita,
e deixo que a sombra de um som reze e
lance a sua linha, até que algo morda.

Inspirado e em bruto, saio e meto-me
em tardos carreiros iluminados por alguns
frutos caídos. Levam-me a um jardim sufocante,
povoado de estátuas leprosas que guardam
ainda feições meninas esculpidas
em segredo. O vento que em todas
as línguas se comove, esta não a percebe.
Arrancou o fragmento de uma oração
à garganta de pedra de uma, fixou-o,
e repete, repete-o num tom altivo
como se abençoasse o lugar. Mas não
pode restituir o grito àquela visão. O tempo
aqui tem método, leva a sério o que faz.

Esta cidade embrutece. A sua envelhecida
fúria engrossa-nos o sangue. Cedo damos
por nós entre as figuras quebradas que
se esgotam a circum-navegar as suas
praças e largos, a descer e subir
de olhos vazios estas ruas escarpadas.
Até que, por fim, todo o almirantado se
reúne nalgum dos seus atracadouros.
O cheiro azedo de flores suadas, já feias
e descrentes. As mãos caídas, graves,
fechadas sobre remos de cinza.
Rostos insuportáveis de ternura, cheios
da fome e dessa sede antiga que nos
irmana. Fundidos na ressaca perpétua
de um império humilhado, são nossos
esses corpos frios que compõem o
fundo dos vossos postais. Anónimos
e, justamente por isso, tão familiares.

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