domingo, outubro 28, 2012

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Foi a consciência sufocada não no mundo externo que todos acusamos mas em nós próprios, na condição humana, que finalmente ditou o seu inesperado suicídio num banal quarto de hotel? Gostaria de pensar que sim, mas corro talvez o risco de dar demasiada atenção ao artista em detrimento do homem. Baltasar escreve: «Entre todas as coisas, o seu suicídio continua a ser para mim uma fantasia extraordinária e inexplicável. Fossem quais fossem as pressões a que estivesse sujeito, não consigo acreditar. Mas suponho que dos outros apenas conhecemos a superfície sem podermos mergulhar nas profundezas ocultas. Contudo, insisto que a coisa não se enquadra no seu carácter. Bem vê, ele estava verdadeiramente em paz com a sua obra, ao contrário do que sucede com muitos artistas, parece-me, e tinha chegado a considera-lá como "divinamente supérflua" – uma frase característica. Tenho isto por seguro porque, certa vez, escreveu-me nas costas de um sobrescrito uma resposta a esta pergunta: "Qual é a finalidade do escritor?" Eis o que respondeu: "A finalidade do escritor é desenvolver uma personalidade que, por fim, permite ao homem transcender a arte".


- Lawrence Durrell
in Baltasar, Ulisseia

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