quinta-feira, outubro 11, 2012

Alexandria

-
Comecei a caminhar vagarosamente,
profundamente estupefacto,
e a descrever para mim, em palavras,
todo este bairro de Alexandria,
porque sabia que em breve
seria esquecido e apenas revisitado
por aqueles cujas memórias tivessem
sido modeladas pela cidade febril,
agarrando-se ao espírito dos velhos
como perfume à manga de um casaco:
Alexandria, capital da Memória.

A rua era de terra barrenta e perfumada,
doce depois da chuva, mas não húmida.
De ambos os lados havia casas de meretrizes
cujos corpos de um mármore comovente
se conservavam modestamente postados
diante das suas respectivas portas,
como no limiar de um santuário.
Sentavam-se em tripeças, colocadas
em plena rua, como as pitonisas,
os pés ocultos nas pantufas de cor viva.
A originalidade da iluminação dava
a toda a cena as tintas de uma fábula eterna:
em vez de ser iluminada do alto,
toda a rua recebia a luz de uma série de
lâmpadas de carbureto, de chama radiante,
pousadas no chão, lançando irreais
sombras violetas nas esquinas e
sobre as empenas dessas casas de bonecas,
nos olhos e nas narinas das locatárias,
na submissa doçura dessas trevas
de forro de casaco. Eu percorria
lentamente esse extraordinário jardim
de flores humanas, pensando que uma cidade,
tal como uma pessoa, reúne as suas
predisposições, os seus apetites
e os seus temores. Cresce para a maturidade,
produz os seus profetas, declina na senilidade,
na velhice ou na solidão, que é ainda
a pior de todas as coisas. Inconscientes
de que a cidade está moribunda, os vivos
continuam a sentar-se nas ruas, como cariátides
sustentando a noite, com as dores do futuro
pintadas nas pálpebras; observando insones,
os caçadores de imortalidade, através de toda
a fatídica extensão do tempo.

- Lawrence Durrell
(tradução de Daniel Gonçalves)
in Justine, Ulisseia

Sem comentários: