[Texto de David Teles Pereira publicado no Ípsilon de 28 de Setembro]
Este “50 Poemas” (Relógio d’Água, 2012) é o primeiro livro de
Tomas Tranströmer a ser editado em Portugal, apesar de alguns dos seus textos
se encontrarem já traduzidos para o português e incluídos em obras colectivas
e, principalmente, apesar de este autor pertencer a um grupo cada vez mais
restrito, do qual fazem parte também John Ashbery, Adonis ou Tadeusz Różewicz:
o dos grandes poetas do século XX ainda vivos.
Nascido uma década mais tarde que o poeta polaco, em 1931, Tranströmer
estudou psicologia e, no início da sua carreira, trabalhou em Linköping, num
instituto para delinquentes juvenis, detalhe biográfico com enormes
consequências na sua obra poética. Estreou-se em 1954 com “17 dikter” e, desde
então, publicou mais de uma dezena de livros de poesia e já recebeu diversos
prémios por todo o mundo, incluindo o Nobel da Literatura de 2011, o qual, ao
que parece, finalmente ajudou os editores portugueses a decidirem publicar a
obra deste poeta em português. É, ainda assim, com enorme entusiasmo que os
leitores, em especial os de poesia, devem receber este recente livro da Relógio
d’Água.
Procurando sintetizar as qualidades de Tomas Tranströmer, o
poeta sírio Adonis – um eterno candidato ao Nobel– escreveu na introdução à
tradução de um livro do autor sueco que a obra deste se encontra profundamente
enraizada na terra da poesia. A crítica tem preferido colar, com argumentos nem
sempre convincentes e com algum facilitismo, a sua poesia à sua terra natal, a
Suécia. Não é que isto não seja, em parte, verdade, como destaca Alexandre
Pastor na sua nota introdutória a esta tradução ao dizer que Tranströmer “é um
mestre incansável ao descrever-nos a Natureza, mormente a Nórdica, e não há
outro que se lhe compare quanto à acuidade com que a observa e nos descreve as
estações do ano” (p. 8). Poemas como “Casas Suecas em Sítios Ermos”, onde o
poeta fala dos “Verões com chuva linhosa” (p. 41), ou como “Uma Noite de
Inverno”, em que “A tempestade tem mãos e asas infantis./ A caravana vai em
direcção à Lapónia./ E a casa conhece bem a constelação de pregos/ que mantém
as suas paredes juntas.” (p. 99), são disso mesmo prova.
Contudo, muito mais do que um poeta da paisagem nórdica,
muito mais do que a escrita de um romântico paisagista tardio, há algo na obra
de Tranströmer que lhe dá uma dimensão poética absolutamente alheia a qualquer
circunstancialismo geográfico e que permite ao leitor compreender o lugar em
que a linguagem deste poeta se coloca, ainda que nunca tenha ouvido sequer
falar da Suécia, ainda que esta Suécia nem sequer existisse e fosse apenas uma
ficção do autor. Esse lugar é, primeiro que tudo, o da transformação, aconteça
esta no clima [“Quando para de chover, a árvore também para./ E vislumbra em
frente, quieta em noites de luar,/ à espera, como nós, do instante/ em que
flocos de neve decorem o céu.” (p. 95)] ou no corpo [“Acontece, a meio da vida,
a morte bater-nos à porta/ e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,/ e
a vida continua. O fato, porém, esse/ é cosido em silêncio.” (p. 17)]. Não se
trata, contudo, de uma transformação vista em grande escala ou perspectivada.
Mesmo quando o tema é a morte “que aumenta a luz que emana da terra” (p. 39),
um dos mais frequentes na poesia de Tranströmer, a transformação é quase sempre
vista de perto, no instante em que a mudança acontece. Talvez por isso, os
contrastes entre a luz e a escuridão, o ruído e o silêncio ou a calma e a
tempestade surjam ao longo de grande parte destes “50 Poemas”.
Contrastante também, em quase toda a poesia de Tomas
Tranströmer, é a sobriedade e secura do seu estilo, quando comparado com o
poderio imagético da sua poesia. Numa primeira camada, a poesia deste autor
encontra-se pejada de estímulos sensoriais, numa tentativa de comunicação do
que é sentir nesta sua vertente mais imediata, a da experiência: “Num
compartimento fumegante, um vulcão, de pé, frita dois peixes segundo uma antiga
receita do Atlântico: pequenas explosões de alho, azeite que ensopa rodelas de
tomate.” (p. 15). De seguida, parte para a interrogação metafísica, para uma
meditação que utiliza a itinerância sensorial como ponte não propriamente para a
realidade, entendida não propriamente enquanto aquilo que se perde na efemeridade
da experiência, mas sim enquanto condição permanente e intemporal do homem:
“Cada garfada diz-nos que o oceano nos quer bem, é um canto a meia-voz vindo do
profundo.” (idem) ou “Escuto o horizonte. Os mortos querem dizer algo./ Fumam
mas não comem, não respiram embora lhes reste a voz.” (p. 73).
Esta é, como não poderia deixar de ser e como intuiu o
poeta Adonis, a terra da poesia, onde será sempre o mesmo aquilo que aconteceu
e aquilo que acontecerá “enquanto a natureza do homem continuar a ser a mesma”,
nas palavras de Tucídides na sua História da Guerra do Peloponeso. A alusão ao
historiador clássico não é inocente. O desejo que impulsiona grande parte da
poesia de Tomas Tranströmer é o mesmo que o de Tucídides ao escrever a sua
grande obra como um legado para sempre. Nesta medida, não pode o leitor
estranhar que aquilo que mais imediatamente escapa à realidade, o passado e o
sonho, surjam na poesia de Tranströmer muitas vezes em comunicação directa ou,
até, em fusão com o presente.
Contudo, há que referir que o investimento do poeta sueco
na musicalidade dos seus versos, tantas vezes destacado pelos críticos e
leitores da sua obra, se perde em grande parte na passagem para o nosso idioma.
Isto impede, infelizmente, o leitor português de disfrutar plenamente da poesia
deste grande autor.
Quem tem acompanhado as traduções de poesia publicadas
nesta editora sabe que o seu catálogo, para além de vasto, conta já com
diversos livros de autores laureados com o Prémio Nobel da Literatura, como é o
caso, entre outros, de W. B. Yeats (que o ganhou em 1923), de T. S. Eliot (1948)
ou de Wislawa Szymborska (1996). Não pode deixar de causar algum espanto que,
com este catálogo, seja Tomas Tranströmer o primeiro poeta a ver o seu Prémio
Nobel de 2011 cristalizado na capa desta primeira edição dos seus poemas em
português, entre parênteses e por baixo do seu nome. Isto não é, contudo,
apenas uma pequena cedência da editora a uma estratégia comercial, a qual não
pode, verdadeiramente, ser censurada. A necessidade que os editores sentiram de
destacar o Prémio Nobel na capa diz muito sobre a pouca exigência dos leitores
em Portugal – não só os de poesia –, aparentemente mais receptivos a estas
formas de fazer incidir luz sobre um livro e mais preocupados em pautar as suas
escolhas pelos critérios de uma academia escandinava. Talvez
não seja descabido dizermos que, de certa forma, nos assemelhamos todos aos
jornalistas que ano após ano esperavam pelo anúncio do Prémio Nobel da
Literatura nas escadas do apartamento de Tomas Tranströmer, honrosa distinção
que teimava em escapar ao grande poeta sueco. Felizmente para esses jornalistas,
um dia o prémio chegou e tiveram a oportunidade de tirar a sua foto e de relatar,
in loco, o acontecimento. Felizmente
para nós, um dia o prémio chegou e finalmente tivemos a oportunidade de ler em
português um conjunto significativo de poemas de um autor, os quais já eram – e
serão sempre – maiores que todos os prémios que ele recebeu. Mas não deixa de
ser verdade que, antes, quase ninguém o procurava e, mesmo com o Nobel
cristalizado na capa, talvez continuem a não o fazer.
Tomas
Tranströmer, 50 Poemas, Relógio d’Água, 2012.
Nota:
4 estrelas

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