A ver se a vida não entra no bloco de notas.
Esta, a suja, com ratos a roer atacadores
e gente pendular sem nada para dizer
e um débito ininterrupto de banalidades
que me ferem a inteligência e põem
barreiras nas ruas da imaginação.
A ver se vou viver na Roma Antiga,
ao Sol (ao Rato ou à Graça ou onde fôr).
Filosófico e imperial, vogar na quietude
de uma cidade em que o tempo presente
seja só uma folha de jornal ao vento
e os burgueses, a espaços, facas arrastadas
pelo chão. A ver se descortino e identifico,
um a um, os baixos-relevos que se escondem
nos palimpsésticos panos de muralha
da Sé. Se descubro uma cama de nuvens
onde morrer em paz, demasiado cedo,
demasiado tarde, à hora certa no relógio
de Deus. A ver se vou pela Via Appia
quando as minhas pálpebras se despirem.
- Miguel Martins
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