sexta-feira, agosto 03, 2012

Gore Vidal

Nasceu dentro de um frasco de perfume,
como tantos, mas conseguiu evadir-se,
o que não é para todos. Melhor ainda,
só parou de crescer quando atingiu a
altura de um homem, como raro se vê.
Pelo caminho, foi rompendo os melhores
fatos teóricos, com uma mobilidade
que deixava a gaguejar o cadáver
dos seus contemporâneos, que usavam
e usam os ossos por dentro da roupa,
para não os sujarem, e por isso se chamam
contemporâneos. Ele não, ele não temia
a sujidade, porque sabia escolher
os melhores detergentes, e se lhe deixassem
teria limpado a Casa Branca, por exemplo,
do sótão à cave, e isso a brincar, numa manhã
de trabalho. Isto dos detergentes, porém,
era apenas um dos seus talentos, nem sequer
o mais visível. Onde melhor brilhava era na arte
de sobrepor as cores (há mesmo quem o tenha
por um dos inventores do arco-íris, mas não
é verdade), para grande confusão de daltónicos
e outros letrados (cuja cega paixão nunca sabe
mais do que seguir as últimas montras de Londres
-Paris-Nova Iorque). Se vestia melhor, com precisa
elegância, é porque ia mais longe, aos fundos
da história, buscar os seus fios, que ele
próprio tecia, e também os figurinos,
que depois adaptava com a razão estética
de quem se está a marimbar para janotas
e demais aspirantes a vidrinhos de cheiro.


Outubro, 2010
- José Miguel Silva
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