sábado, agosto 04, 2012

Depois das notícias da sua morte

(J. G. de B.)

Ouvirão os mortos o que os vivos logo dizem deles?

L.C.

Que curioso, quando um poeta morre – quero dizer,
quando termina o tempo do homem que traçou
os versos de um poema que não morre com o tempo –,
que curiosa e que estúpida
a forma como a tribo o despede.

Toda a habitual estupidez e a curiosidade
aumentam no seu caso. Pois a quem os demónios
desejam esquecer, hoje em dia, não lhe outorgam desgraças,
nem amor insatisfeito, nem amor correspondido que se apagará,
convertem-no antes em carne dos jornais.
O pior da morte não é a nossa própria morte,
mas que a nossa morte seja notícia
segundo o juízo de uns quantos. Aqueles que mais ignoram,
mas não deixam de escrever,
levantam as cinzas de não importa que morto
em nome de um dever para com os seus leitores,
que ninguém lhes reclama. Esses que nunca lêem, os mesmos
que pensam que um poema é a efusão de um tipo
que contraiu febres sentimentais quando era jovem,
e então – com o cadáver pelo meio, se possível –,
descobrem-se incondicionais da Literatura,
que escrevem com maiúscula.
Toda a estupidez, repito, se acrescenta no seu caso.
Pois não bastasse o castigo diário
do papel diário dos jornais, algum amigo de velha data,
velho companheiro naquela velha viagem,
aproveita o momento para corroborar o que já se sabia:
que apenas os covardes atacam os mortos,
e que a estupidez é para alguns
o único caudal que os anos acumulam.

Depois das notícias da sua morte,
a sua morte era notícia – parece –, apesar da sua obra,
e não graças a ela. Ao fim e ao cabo, apenas a sua doença,
ou a fama de bêbado, ou de fodelhão,
interessam à grande maioria a quem nada interessa.

Desta extensa crónica registe-se
– espero eu – um desejo para o futuro,
que se há alguns que desejam partilhar,
não quer dizer que todos tenham esse direito.
Não ajuda a uma boa morte, mas a não ser estúpido
na morte dos outros.

___________________Quando morra um poeta
– ou melhor, quando termine o tempo
de quem escreveu uns versos que sobrevivem ao tempo –,
quem o conheceu e o amou
que chore o amigo; quem o conheceu,
mas não o apreciava, que se cale e demonstre
o respeito que aos mortos é devido;
que os seus velhos leitores agradeçam
a eternidade privada de sua própria memória;
e que o resto, o mesmo é dizer, quase todos,
nos façam o favor de estar calados,
pois se de alguma coisa os poetas necessitam
– e os poetas mortos seguem sendo-o –,
é que se calem nessas ocasiões
os que sempre estiveram calados.

E para concluir, que quem pôs de pé estas linhas
possa gozar na morte o que a morte terá
de recompensa:
___________ não escutar os vivos,
esta crónica incluída.

- Carlos Marzal
in
Poesia a contratiempo, Diputación de Granada

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