quinta-feira, maio 31, 2012

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Naquela sociedade canibal os que não estavam a deixar-se devorar contavam-se por não muitas caras. Que caras! Começou-se a ver. Houve incursões psiquiátricas, suicídios, prisões. Alguns destinaram se a si próprios ao estrangeiro. Quando subiu a temperatura, os que se aproximaram com os seus engraçados aparelhos de curiosidade afastaram-se depressa. Dispensámos, ficámos para aí uma dúzia. Cada um mergulhou a sua maneira nas confusões. Se passava alguém, via cadáveres. Não sei qual de nós, de um modo ou de outro se não transformou em cadáver. Estranhos cadáveres esses. Talvez pretendessem aterrorizar, mas ninguém olhava muito, e o terror era então um jogo restrito, um lume pessoal de queimar os dedos.
A nossa alegria do tempo e do sítio era uma coisa truculenta, desesperada, um tanto sinistramente indesculpavél. Gostávamos uns dos outros não tanto por amor, mas por inquieta cumplicidade. Praticávamos junto tanta ironia feroz, tanta decifração incómoda e pormenorizada malevolência, que já não era possível pensarmos em ser de outra raça. Cada qual foi sendo da mesma raça por caminhos desiguais.
O estilo de tratamento bebia numa espécie de desenvoltura maligna. Não era de mansidão o que havia por dizer e fazer. Mas ligava-nos a comoção, sabíamo-nos mutuamente, e por isso praticávamos a honestidade de não facilitar a nossa própria dificuldade.
Tínhamos uma lucidez espertamente lúciferina, crueldades para uso centrifugo e centrípeto. Carnívoros, sim, mas tocados também pela secreta fragilidade de quem anda perdido no escuro. As palavras mostrariam, a quem não fosse analfabeto nas coisas implícitas, toda essa movimentação de dentro para fora.
Não havia perdão entre nós, nem entre nós e o mundo. Tudo o que foi dito e feito possuía uma doçura ocultamente envenenada pela raiva e o medo. A paz que se procura durante a biografia que em grande ou pequena escala se tornou faústica por qualquer, mesmo precipitado, pacto, não se encontra nunca mais, nem simples nem complicadamente. Havia momentos para nos divertirmos com a pequena demência de mordermos as próprias mãos. O teatro disto poderia ser por identificação com o mito de nós mesmos em que, não apenas literariamente, nos empenháramos.
Existe quem não entenda destes divertimentos. Entendíamos nós. Entender unia-nos.
Uma das expressões asperamente cultivadas era: «Está podre!» Entendíamos.
E estava, estava podre, o mundo com os seus anjos cibernéticos, as devastações no interior dos mitos, a ardente melancolia dessa perspectiva onde fora posto, como numa cerimonial pintura das épocas do ouro, essa estrela imóvel de um destino longamente amado e que afinal acabou por nos queimar a todos, de alto a baixo como um fogo eléctrico.
E agora amávamos essa queimadura que, com dedos absurdamente inocentes, tocávamos uns nos outros. Fábula da solicitude trocada, uma ilustração do amor sem qualquer amanhã. Porque era já uma despedida de entre nós, uma despedida de nós mesmos. Entretanto, devorávamos a terra inteira: e sabia a sangue. O triunfo confuso das nossas vidas estava em que o sinistro retrato das coisas se exaltava de repente com uma luz saltando do fundo. Aqueles que então morreram, decerto morreram com a única glória possível. Todos os outros ficaram como mito de si próprios, acompanhados pela interminável doença do tempo. E mantinham um regulamento: a proximidade sempre e sempre readquirida da morte. Tudo o que disso se recolher servirá de alimentação. Quer dizer: podemos devorar a nossa biografia, podemos ser antropófagos, canibais do coração pessoal. E o escrito conservará cegamente um tremor central, esse calafrio de ter olhado alguma vez o nosso rosto filmado no abismo do mundo.
Mas tal sobrevivência, e o olhar a ela deitado, mexidos sempre por esse culto de ironia que sabe menorizar tudo, mesmo os nossos extremos. Pois nunca serão bastante extremos em referência à totalidade apostada. A ironia não salva, mas ressalva.

- Herberto Helder
in Photomaton & Vox, Assírio & Alvim

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