terça-feira, abril 24, 2012

Requerimento

Edecetríssimo Senhor:
Eu, Gabriel Celaya, aspirante a poeta,
que aconteça o que acontecer estou sempre onde estou,
lida a sua de tantos de tal e adiante,
respondo-lhe que não.

Confesso que sempre clamei a minha verdade, mesmo em verso;
mas já D. Quixote disse: «Eu sou quem sou»,
e ao sê-lo era um qualquer, e ao dizê-lo realizava-se,
e ao formar-nos formava-se; como ele eu me formo.
Sou irremediavelmente espanhol.

Sou humilde, sou digno. Os dois ao mesmo tempo.
Tal como o povo, sou invencível.
Por consequência, rogo-lhe, Senhor, que não me acuse
do ruído que ainda faz o meu velho coração.
A explosão que o assusta é apenas um grito de amor.

Que Deus o encontre confessado. Encerro o assunto.
Dato e assino em terra vasca, com o sangue de Unamuno,
com o que signo que é o humano de um clamor unânime
e suplico a V. Ex.ª: — Deixe-me ser espanhol!

- Gabriel Celaya
(tradução de Egito Gonçalves)
in Poesia Espanhola do Após-Guerra, Portugália

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