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Escrevo a tua morada, mas sei que me engano; nem há ruacom nome assim (setenta letras!)
de qualquer modo é um caderno para deitar ao rio
quando passar a ponte,
uma escada e chegas ao cimo não importa,
um barco a arder, ninguém foge, etc.,
antes isso que a piedosa mentira
em que se oculta, ó tão pouco, a injusta morte.
convoco as mais belas coisas, e tu entre elas,
dou-te livremente à harmonia pública,
meu segredo.
quando tudo acabar (quero dizer os astros)
ficarão estas sete mil letras para ir ferir,
agudos ganchos, o ténue flanco dos humanos!
onde, quando? perguntarão, surpresos com o meu fracasso,
a revoada de aves, o salto do cometa.
a decifragem durará cem anos; mil.
florestas e cidades confundidas, nunca
será certeiro o mapa.
que sonho mais atlético podia
igualar-te em nobreza, ó desejado
futuro de ninguém?
mas não te iludas: o breve e desolado
e errado nome, é toda a tua história.
- António Franco Alexandre
in As moradas 1&2, Assírio & Alvim
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