terça-feira, fevereiro 28, 2012

Big Sur

«O vento arrasta os tristes acordes da Kathleen entoados pelos sinos da igreja no momento em que eu acordo em pleno bairro de espeluncas, acabrunhado e piegas, a gemer por causa de mais uma carraspana e a gemer acima de tudo porque estraguei o meu “regresso secreto” a São Francisco ao embebedar-me estupidamente enquanto me escondia nas vielas com vagabundos e depois entrando às claras em North Beach para encontrar toda a gente, isto apesar de Lorenzo Monsanto e eu termos trocado longas cartas nas quais combinamos a melhor maneira de eu chegar sorrateiramente, telefonar-lhe usando um nome de código qualquer como Adam Yulch ou Lalagy Pulvertaft (também escritores) após o que ele conduzir-me-ia em segredo até à sua cabana na floresta de Big Sur onde eu ficaria sozinho e tranquilo durante seis semanas sem nada para fazer senão partir lenha, ir buscar água ao riacho, escrever, dormir, dar passeios a pé, etc. etc. – Mas em vez disso entrei de rompante na sua livraria City Lights, já bem bebido, no auge da azáfama de sábado a noite, toda a gente me reconheceu (ainda que à laia de disfarce eu trouxesse o meu chapéu de pescador, o meu casaco de pescador e umas calças impermeáveis) e no fim de contas dou por mim podre de bêbedo a visitar todos os bares famosos e a anunciar em altos berros que a porra do “Rei dos Beatnicks” está de volta à cidade e paga bebidas a toda a malta – Dois dias disto, incluindo domingo, o dia em que é suposto o Lorenzo vir buscar-me ao meu hotel chungoso “secreto” (o Mars, na esquina da 4th com a Howard) mas quando ele bate à porta do meu quarto ninguém responde, ele pede ao recepcionista que venha abrir e depara comigo deitado no chão no meio de um monte de garrafas, o Ben Fagan estendido com metade do corpo debaixo da cama, e o Robert Browning, o pintor beatnick, em cima dos lençóis, a ressonar…»
(…)

- Jack Kerouac
(tradução de Paulo Faria)
in Big Sur, Relógio D’Água

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