bem distante lá na gruta marinha
onde a sereia cantava à porta do café.
Era na luz eléctrica
cavando a contenção dos mármores,
num abismo risonho de copos e cabeças,
que as árvores, há pouco fugidas ao comboio,
regressavam dos seus vultos, verdes;
e começavam a floresta com aves em sono embalsamadas
sob a teia do luar que os espelhos mantinha, junto ao tecto.
Desenrolando-nos tempo, ficávamos em baixo:
o leão, o tigre, a cobra, o papagaio,
uns fósseis... e um peixe...
dispersos, a correr pelo silêncio,
fugindo à cisma que por fim nos juntava
e nos colava as máscaras do dia.
Distante, lá na gruta marinha,
a sereia cantava surda nos confins do café.
Ah, estava agora bem perto
o respirar da noite galopante,
embranquecendo aos poucos,
cristalizado em nossas caras mortas de acordados.
E a noite víamos, enfim,
e em seu olhar de espelho,
terrífica
reflectida
a pequenina e inerte paisagem que formávamos,
uma paisagem de alfinetes espetados no chão,
à vista do enorme pé do último rotundo freguês
avançando num passo!
- Edmundo Bettencourt
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