Prefiro não chamar as coisas pelo
seu primeiro nome. Essa rua que daqui já mal
se vê, mas sobe ainda até à casa, a fábrica
do teu pai logo por trás, e uma primavera
aldeã que me fala pausadamente
de um abandono encantador.
Entro, atravesso o corredor e paro
à porta do teu quarto. Não sei o lugar
das coisas agora, muito já se foi perdendo
com as memórias. O que restou
disponho entre estas linhas que não sei
se ainda lês por alto, se não te cansou
a insistência em alguém como tu.
Golpes baixos, já sei. Mas também imagino
que gostes de rever-te sob a esbraseada estampa
do vestido que preferias, aquele velho blusão
de cabedal, gestos simples e a beleza que trazias
sempre à beira do silêncio.
Prefiro agora chegar por outras palavras
a este ritmo, estas mãos disponíveis
teimando sobre a vala do peito
e o pouco que detêm neste Café,
onde venho e vou pedindo namoro
a quem quer que apareça. Entre variações
de entusiasmo, uso quatro ou cinco nomes
a que me apeguei, vidas empatadas
por razões que invento para não me ver
sozinho: o Rui ou o José, o António,
o Pedro, e o Diogo também.
Ocasionalmente, apareces. Ontem
a um canto, numa pose trágica lá para o fim
da adolescência, fixavas a noite à perturbada cor
dos olhos. Ias um pouco à minha frente,
a vodka acalorando uma distância qualquer
debaixo da língua ao mesmo tempo
que castigavas as pontas dos cabelos
num enfado muito teu. Sustive
a respiração enquanto colhia um susto
na tua voz, pouco depois um gracejo
e enfim perdi-te os contornos, a sombra
tombou e derramou-se no espaço
entre as mesas. Levantei-me,
desta vez como Jorge, e meti-me
com a loirinha que surgiu à entrada.
Muitas noites demoram-se aqui, não vêem
nada senão derrubes de afecto e versos
rastejando sobre vómito,
o teu número escrito por toda a parte.
Pior, bebendo demais, às vezes ligo-te
e a gaja que atende não se lembra,
não quer saber, nem toma nota
dos recados que te deixo.
Ainda tento, tento mais tarde.
Se me voltasses a falar de Buenos Aires,
se cedêssemos a esta música que hoje veio
gaguejando um amor arruaceiro,
sem medo de chorar, teria então
menos vontade de me repetir
e os corpos, nos meus poemas,
não seriam só o caminho mais fácil
para a dor, antes satélites
na órbita de uma ternura pouco exigente,
tão doce e trôpega, agarrando-nos
pela cintura e avançando sobre este tango.
4 comentários:
"Pior, bebendo demais, às vezes ligo-te
e a gaja que atende não se lembra,
não quer saber, nem toma nota
dos recados que te deixo."
=O Muito bom...
lindo
se fosse preciso um poema para exprimir o que é a tendência geral da "novíssima poesia portuguesa" de LMQ escolheria este. tem todos os seus elementos.
T.
Concordo absolutamente com o Tiago.
De repente vi-me dentro de um filme de Wim Wenders. Às tantas esta poderia ser uma (a) verdadeira Lisbon Story.
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