a mulher do merceeiro, a mulher
misteriosa que morava no armário
dos nossos treze anos, que levava
a manhã toda a atravessar a nossa rua,
Mrs. Tyler tinha o dom de humedecer
as nossas noites, de cortar em dois
o dia, de sorrir-nos num enlevo
que durava três semanas.
O seu corpo era um país atordoante,
cujo mapa refazíamos, mental,
a cada aparição, lugar iniciático
por onde (se a Fortuna nos quisesse)
chegaríamos de pronto ao outro lado
da infância. Mas não estava, a nossa
deusa, pelos ajustes – mal nos via.
Talvez a divertisse ser o pêndulo
das vinte e quatro horas que lhe dávamos,
doentes, faca e foco do desejo
para inteiras gerações de rapazio;
mas disso não passava, de uma brasa,
de uma prece, que soprávamos
até perder a voz, o fôlego, a fé.
Mrs. Tyler, a quem todos tanto
amámos, Mrs. Tyler, onde estás?
- José Miguel Silva
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