segunda-feira, maio 04, 2009

Lianor

Hoje no elevador descobri o seu nome.
No cartão pessoal, que retirou com cuidado
para não soltar os fios da camisola de lã,
estava escrito à máquina Lianor.

Leonor no espelho do elevador vê pelo canto do olho se está arranjada.
Ela sabe que por detrás da orelha já não tem uma flor selvagem, e por isso
tem espaço para arrumar o seu cabelo com a mão, como se o escondesse.
Repara nos seus dedos riscados pela esferográfica que deixou arrumada
sobre a secretária. Está bonita na sua insegurança.
Leonor é agora tão verdadeira nessa impureza frágil como
a água canalizada, que escondida na parede do prédio
só é relembrada quando falta na torneira.
Leonor em vez de se colocar a meio do elevador vazio prefere pôr-se,
aconchegada a um canto, tal como faz à noite antes de adormecer,
de modo a não sentir o resto da cama fria.

- João Miguel Queirós

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