quinta-feira, abril 09, 2009

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A um poeta velho no Peru


Porque nos conhecemos ao escurecer
sob a sombra do relógio da estação de comboios
enquanto a minha sombra visitava Lima
e o teu fantasma morria em Lima
cara velha necessitando ser barbeada
e a minha barba jovem vicejava
magnífica como cabelo morto
nas areias de Chancay
Porque erradamente pensei que eras
a melancolia
saudando os teus pés de 60 anos
que cheiram à morte de aranhas no empedrado
e tu saudaste os meus olhos
com tua voz de anis
erradamente pensando que eu era genial
para um jovem
(o meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando numa cidade moderna)
(o teu obscuro tremor é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-te na tua bochecha gorda (uma vez mais amanhã
sob o estupendo relógio de Disaguaderos)
antes de ir para a minha morte num acidente de avião
na América do Norte (há muito tempo)
e tu ires para o teu ataque cardíaco numa rua
indiferente da América do Sul
(ambos rodeados por comunistas
aos gritos com flores
no cu)
- tu muito antes de mim -
ou uma longa noite sozinho num quarto
no velho hotel do mundo
olhando uma porta negra
... rodeado por bocados de papel
MORRE FAUSTOSAMENTE NA TUA SOLIDÃO

Homem velho,
Profecio a Recompensa

mais vasta que as areias de Pachacamac
mais brilhante que uma máscara de ouro martelado
mais doce que a alegria de exércitos nus
fodendo no campo de batalha
mais rápida que um tempo passado entre
a noite da velha Nasca e a nova Lima
ao escurecer
mais estranha que o nosso encontro ao pé do Palácio
Presidencial num velho café
fantasmas de uma velha ilusão, fantasmas
do amor indiferente –
A INTRIGANTE INTELIGÊNCIA
migra da morte
para te dar uma vez mais um sinal de vida
feroz e bela como uma colisão de automóveis
na Plaza de Armas

Juro que vi essa luz
não deixarei de beijar a tua bochecha odiosa
quando fecharem o teu caixão
e as carpideiras humanas voltarem
ao seu velho Sonho
cansado.
E acordares no Olho do
Ditador do Universo.
Mais um milagre estúpido! Estou
novamente errado!
A tua indiferença! O meu entusiasmo!
Eu insisto! Tu Tosses!
Perdido na Vaga de Ouro que
corre através do Cosmos.
Ah estou cansado de insistir! Adeus,
vou para Pucallpa
ter Visões.
Os teus sonetos limpos?
quero ler os teus rabiscos
mais sujos e secretos,
a tua esperança,
na sua mais Obscena Magnificência. Meu Deus!

- Allen Ginsberg
(tradução de Miguel Martins)

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