… Compreendi então que nunca mais a poderia deixar
quando me beijou pela primeira vez e
a sua boca sabia a esperma ainda fresco
Jorge Sousa Braga
E vem aí um poema com cheiro a corpo
cansado pela manhã e a lógica
que a frio te despertou puxando
uma camisa sobre os ombros, na boca um
cigarro continuado a nivelar o que da cidade
se vê para lá da pequena dor de chuva
na janela.
Se ao menos a cidade fosse
outra de vez em quando,
mas não, e
no limite o coração é mais
uma espécie de cansaço, num rigor
e ritmo doméstico esperando por ela.
Mesmo às vezes
a fúria e crueldade com que
um gajo chega à página depressa esmorece
em associações rudes e banais –
o copo que tens na mão e outro
depois desse, um jogo de palavras
com um bocejo pelo meio,
um nada que vai e vem
enquanto te coças sem saber onde foi.
E do mesmo modo que foi
voltará depois, embrulhada em fantasias,
estórias inimagináveis, engates e desgastes,
enchendo de ciúme versos
que só a ti parecem sempre poucos
e curtos, e assim se perdem em rodeios
para os piores significados.
Outras vezes, sem dizer nada, chega
simplesmente,
sintoniza a Radar ou, já de madrugada,
fica entre as televendas estendida
no sofá com a colher e o frasco
da manteiga de amendoim,
enquanto vens de manso com truques e doçuras
para confessar horrores sentimentais
sem lhe magoares o silêncio.
Uns dias é tão fácil, noutros não vale a pena,
ainda aproveita e pede dinheiro para o curso
de cosmetologia, astrologia, acupuntura
e outras iniciações em parvoíces alternativas.
E nisto tu, poeta,
não passas de um corno,
refém de um hábito à violência, a rara
sensualidade da musa que não cede.
No fim já só te reconheces
no reflexo dos óculos para um sol
que não apareceu, aros enormes numa ironia
em forma de coração, estilo Lolita.
O sorriso também e mais qualquer coisa.
Restos de verniz que se perpetuam
nas unhas dela, os dois ou três livros
que tem e lê repetidamente, forrados
com jornais (recortes de
crimes de sangue), ou a faca
de cozinha que tatuou no antebraço e nunca
explicou porquê. Assim deixa-te imaginar
o que quiseres – se não é
outra promessa de suicídio, talvez
um símbolo pós-feminista
que só ela entende.
Fica um vazio só teu e longe disso
o jeito dela para a vida,
um terrível encanto e beleza
que fica em aberto
e ao contrário das outras não se aborrece
nem morre para o teu enjoo.
1 comentário:
Aprendemos a amar assim...
commumente, achamo-nos numa resistência inacabada...entendes?! aquela superioridade inválida... Depois, quando vemos a razão que a emoção tende a contrair, deixamo-nos simplesmente... só assim... só a ler! Ainda me pergunto as mesmas perguntas. Ainda penso
os mesmos pensamentos...resquícios minguados de ilusão, ou talvez medeios que se estendem até ti...devagar e algo perto!
Com ou sem inteligência (o que é mesmo?), ainda me recupero à superfície daquele a quem eu disse: "Gosto, porque sim"!
Um bjinho
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