sexta-feira, abril 03, 2009

Com a distância, o afastamento,
acentuam-se as semelhanças.
Eventualmente surpreendo-te a sonhar palavras
que ouviste nos filmes que eu vi. Também os pássaros,
também aquele outro que se transformou, em quê exactamente,
e a cicatriz, embora tudo destinado a desaparecer
mal chegue a madrugada. Somos tão eternos
que duramos pouco, e sempre pueris. Um dia
avistamos ao espelho os primeiros pêlos varonis,
a primeira lâmina, tão fina, rasga a
face, adormecida nos lençóis.
Aprendemos, então, as línguas e as letras primitivas,
as artes de roubar e de prender; numa gare sombria
esperamos o expresso suburbano. E ainda
a terra cheira a coisas nocturnas, viscosas,
pequenos animais erguem o nariz para o ocidente,
passamos a água pela cara e fitamos a imagem
desaparecida de nós.

- António Franco Alexandre

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