domingo, fevereiro 08, 2009

mais uns anos disto - assim e a este ritmo - e algo me diz que estarei como pier della vigna


é preciso parar
às vezes, sabes

era preciso parar e era preciso
a memória de mim a minha fotografia impressa
regularmente no b.i.
morada fixa e outras merdas assim
uma vida normal sempre quis uma vida normal
ou outras coisas mas neste mesmo género

apagada no sofá da sala escura sou eu no meu corpo
o meu corpo entornado na penumbra
a consciência do corpo contra
o vento vermelho-intermitente
a consciência aqui e ali
as mãos lavaram do chão as manchas do meu sangue

é preciso não incomodar ninguém diziam
uns para os outros
é preciso apagar isto do chão e que ninguém se incomode
com isto
era isto o que sobrou de mim
para dizerem entre si enquanto despachavam o trabalho

ninguém me procurará
como filha
ou como mãe
ou como esposa
nenhum desses papéis que cabem à mulher moderna
e à antiga também

intimamente sou o desejo apenas o desejo como uma coisa

bruta coisa essa
cumprir os tímidos fins dos dias
há uma vingança cobarde em fazer cada uma das pequenas coisas que nos pedem
em humilharmo-nos a nós mesmos no nosso apagamento

eu fui aquela última luz
no vento que se vai vazando na tempestade
numa amargura pálida e constante

mas terei sido eficiente
terei sido uma espécie de puta eficiente e séria

deve ser isso que de mim se espera porque
outra merda não se espera da mulher moderna

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