quinta-feira, dezembro 04, 2008

Razorblades & Mirrors

Um gajo sozinho como tu
sempre que sai de casa sai como se fugisse,
e se horas depois volta é sinal apenas
de que também sabe que não há
para onde fugir. Felizmente, a Lisboa
não faltam bairros suficientemente
degradados. Por cá não é tão difícil
como noutros lugares ir pelas ruas e pelos cafés
sem ter programa nem compromissos.

Escolhes um sítio e sentas-te ao balcão.
Podes escrever. Podes não escrever.
A dois bancos do teu outro rapaz
pouco mais velho que tu, sozinho também.
Pedes cerveja, ele bebe um gin tónico e envia
um sms. Cinco minutos depois
telefonam-lhe. Tem um toque polifónico
com a paranoid android dos radiohead e deixa-o
tocar por um bocado antes de rejeitar a chamada.
Parece sentir-se óptimo e tu sabes que pior
é quando ninguém nos liga e os avanços
no relógio digital do telemóvel apenas
escavam mais fundo a ferida de outras esperas.

Passa meia-hora, entretanto o rapaz saiu e entrou
uma ruiva de meia-idade que lhe tomou o lugar.
Pede whisky e acende a autodestruição
sobre o carmim dos lábios. Cigarros
atrás de cigarros, vestígios de tantas noites
no hálito, cenas cortadas e desafectos,
mas por cima deixa aquele último sorriso
de quem não fecha as contas com a vida.
É fácil usar esta Marilyn sobrevivendo
aos seus prejuízos amorosos e ficar longe,
por agora, de outras influências
e versos mais desumanos.

Em tempos terá posto um anúncio para o seu corpo
nalgum periódico, deixando-se destes abrigos
para o desencontro. Mas faltava alguma coisa,
talvez a luz amanteigada nestas paredes, os cochichos
e as birras dos bêbados sem dinheiro ou alguns piropos
e beliscões inconsequentes – estes nadas
que sossegam um rosto adiantado nas horas.

Reparas num pin dourado que tem preso
no casaco de peles, empestado de gordura.
Em relevo, as letras S.S.D.D. (Same Shit
Different Day). A bolsa, as meias de vidro, as pernas
ainda desejáveis e, por essa altura, já se apercebeu
que a olhas. Apanha-te a trocar indiscretamente
a sua realidade por adjectivos e razões
acessórias, um desespero mais teu que dela. Assim
aproxima-se, chama-te Roberto, logo a seguir
prefere Rodrigo – sim, tens mais cara
de Rodrigo, ou Ricardo talvez…

Pedes que levante a mão quente que deslizou
sobre a tua perna, mas sem quereres ser mal agradecido
tiras um chupa (sabor a morango), pagas
e ofereces-lho.
Falam durante um pouco, e mais um pouco depois.
Sem perguntas, só intenções leves, desviadas,
e afirmações inúteis, mas doces, inspiradas até.

O bar vai fechar e tu não vais levá-la a casa,
nem deixar que te dispa.
Isto não é um filme, nem há nesta cidade
uma única mulher que soubesses como salvar.
Mas às duas da manhã há um MacDonalds aberto
na Padre Cruz, um dos poucos
estabelecimentos que vão tirando bom lucro
servindo cheeseburguers e imperiais em copo
de plástico a estudantes sem interesse no futuro
e putas desenganadas que sabem que, se formos
sinceros, também não interessa recordar o passado.

Entre uma coisa e outra fica este poema,
tu e ela sentados lado a lado, os dois quase à vontade
e consolados numa das noites mais frias do ano.

3 comentários:

Daniel Abrunheiro disse...

Há muito não lia um poema "de" natal tão eficaz.

Abssinto disse...

"Toxicidade".

bon!

sinuosa disse...

Este saiu-te extra-bem. Digo eu, que sou eu.
:)