segunda-feira, dezembro 01, 2008

Queremos menos Prufrocks e mais profetas,
porque os Prufrocks já fizeram o seu trabalho:
demoliram o que havia a demolir, pediram
gasolina, chamaram por novos incêndios.

Luís Quintais

Cá estamos, sorrindo entontecidos, caminhando
com um guizo no pescoço entre-linhas claustrofóbicas
como personagens vigiadas perto demais
pelo autor – um funcionário que trabalha uma rima
cada vez mais pobre, mais rouca e dura,
franzindo o sobrolho desconfiado,
cuidando que nenhuma das suas imagens espirre
e lhe manche a folha de serviço.

A cada frase que escreve
lê-se em voz alta, deixando claro às suas personagens
que pode desfazê-las por um amuo ou simplesmente
porque se enerva com uma vírgula. Um tipo desses
que se foi fazendo triste, medindo seriamente
cada gesto e morrendo a cada um
dos seus pontos finais.

Oferece um estranho aperto de mão
que custa a largar – sufoca-nos a respiração,
engorda-nos a sombra, despede-se para sempre
e não sabemos se foi a última vez
que o vimos.
Provavelmente não.

Domiciliados por aqui, chovemos tardes inteiras
com o sangue a querer parar junto às mãos,
abertas sobre a metáfora de um velho piano de cauda
a que elas não sabem explicar como é
que o barulho se afina/se anima fazendo música,
da mesma forma que
entre a página e a boca deste poço
onde provamos o nosso eco, é difícil fazer surgir
uma nova poesia.

Entretanto (devia ser aí um quarto para as sete),
um de nós lembrou-se de ir despejar o lixo
quando deu com um bando de
pássaros fosforescentes no céu e no chão outros tantos
animais elegíacos evadindo-se daqui, indo
noutra direcção. Foi só o tempo de nos entre-
olharmos... Metemos a mochila às costas e, com uma ânsia
deleitosa, saltámos pela janela e seguimos-lhes o rasto.

Para trás ficava essa terra devastada, um reflexo
que tropeçou sobre si mesmo e a garganta
do desencanto, rasgada enfim
pela sua própria lâmina.

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