não chegámos verdadeiramente
a faltar à promessa da morte em vãos de escadas
mas as palavras albergam comodamente pequenas vidas
eu que sou toda uma dessas vidas desperdiçadas numa frase
proferida em 1453
resgato-te
de uma memória de chuva de mármore
inerte a pequena morte vem nos vãos de escada.
usava então um vestido não sei como preto
rasgou-se febrilmente numa primeira palavra
a sombra da muralha na escada entardecia-nos
jerusalém quanto tempo dura a febre a primeira palavra
a vida que se esvai e recupera consoante
a memória e as moradas nunca totalmente esventradas
consoante o vestido rasgado e a vida debaixo das unhas
muito longe já a vida
foi preciso perder uma parte de integridade
por esta habilidade fabulosa
de manter a memória destas coisas
um vestido rasgado ou uma cicatriz
o hábito de regressar a certos lugares
apenas para sofrer a mão fechada da memória
na garganta um vago jogo de xadrez jerusalém
pacientemente
o gato amarelo passa no vão da escada
não estamos já lá lá e já não é 1453.
eu sou esta vaga melancolia da memória
da dignidade austera e paciente na derrota
eu que em jerusalém atravessei o espelho a noite
a morte em prestações
corpo apostado e semi-escurecido contra as palavras
metade do egipto depois
percorrido em fuga
com os meus sete irmãos que morrem em vão
apenas para morrerem em vão.
todos foram caindo suavemente como quem fecha os olhos
alguns no meu regaço adormecendo contra o teu vestido
morrendo de sede junto a uma cisterna enquanto
me distraía o canto de uma voz
vinda de dentro dela
uma seta trespassou-me a garganta
o corpo a meio da linha
há três quartos em jerusalém
nunca estive em nenhum deles mas
também eu conheci a morte
a subserviência das palavras e
as palavras
servem apenas para nos fazerem de carne.
também eu sou de carne e dispersa
rarefeita de todas estas passagens
onde se passeou o corpo em vão.
que mais teria eu que valesse a pena devolver-te
que não a memória dessa tua segunda palavra
essa coisa volátil pequena seta que de noite em noite
te traz aos arrabaldes da cidade
onde procuras o desenho da palavra passada
da palavra possível
possivelmente apenas para beber em caso de sede. tu.
resgato-te de uma memória presa de água
porque isso pertence-me mesmo onde o corpo.
mesmo quando.
variatio in: persona.blogspot.com
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