terça-feira, novembro 18, 2008

Intransigência absoluta

I

Duro é escrever versos
nas manhãs tão severas,
sem vinho e sem drogas
a amaciar as palavras,
a fazê-las felizes.
Como outra coisa qualquer:
lavar as janelas, polir
móveis numa serração,
bater o cascalho nos carris,
quilómetros depois de outro
frio, sem canções nem merendeira,
só fumo das manhãs a escapar
dos caboucos, das emoções.
Duro é escrever os versos
quando, por ironia, se põem
a dizer que é tarde, é preciso correr,
deixa lá essa ideia de serem dúcteis
as palavras, são de matéria
igual à outra, submissas
às leis de gravidade e com desconto
para o fundo de pensões.

- Manuel Fernando Gonçalves

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