sexta-feira, novembro 07, 2008

III

Um deus consegue-o. Porém, diz-me, como há-de
um homem segui-lo através da estreita lira?
O sentido seu é discrepância. No cruzamento de dois
caminhos do coração não há um templo de Apolo.

O canto, como tu o ensinas, não é desejo,
não é anúncio de algo finalmente a alcançar;
canto é existência. Fácil, para o deus.
Porém, somos quando? E quando fará ele girar

em torno do nosso ser a Terra e as estrelas?
Tal não é, jovem moço, o caso de amares, ainda
a voz que te force a boca, - aprende

a esquecer que cantaste. Isso escoa-se.
Em verdade cantar é um outro sopro.
Um sopro por nada. Um adejar no deus. Um vento.

- Rainer Marie Rilke

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