sexta-feira, novembro 14, 2008

Grito

Venho aqui como tantos outros,
arrastando um pensamento como um móvel,
sem ter outra coisa que me reste senão
usar esta vertigem branca,
encostando um grito de sangue ao cimo da página,
deixando-lhe espaço apenas para se mandar
daí abaixo e cair daqui a pouco
– eu já vos digo onde.

Antes queria dizer-vos que estamos
um pouco desiludidos, temos os nossos sonhos
magoados, em carne viva, e se nos aproveita o tempo
para dizermos o que sentimos, é importante lembrar
que estamos muito próximos de escrever
as coisas mais horrorosas, talvez
porque já quase não sentimos nada.

Aqui nos têm a folhear revistas, parando para ler os cabeçalhos,
as tendências deste Outono/Inverno e
artigos que contornam a apostasia colectiva
de que sofremos.
Jovens asseados, mascando chicletes (isto para variar um pouco,
já que se fumam demasiados cigarros nos nossos poemas e
alguns leitores têm-se até queixado que lhes faz mal à saúde).
Mas como estava a dizer, nós estamos por aí debruçados em varandins
de andares tão elevados que se estendêssemos o braço
podíamos arranhar a garganta dos deuses.
E não o fazemos, há séculos que os deuses não têm nada a dizer-nos.
Mas se não esperamos nada deles, seria perverso repetir
que tudo o que queremos é um pouco de silêncio.
Longe disso! Esse velho traste geme ainda em toda a parte,
tão chato como sempre, vem dar-nos corda
às fantasias e entrega-nos nas mãos das noites mais violentas.

Temos excesso de açúcar nas ideias e uma paranóia
para cada dia da semana. Estamos gordos, magros,
feios demais,
somos belos e estúpidos, tão desinteressados,
mal educados, fracos e mimados, não sabemos
o quanto a vida custa mas também
não a queremos comprar. Estamos vivos
a tentar decidir qual será a melhor forma de morrer.
Estivemos apaixonados mas tínhamos pressa
e masturbámo-nos. Estamos fartos de agradecer
tudo o que fizeram por nós, sim, sim, não nos falta nada,
já há até voos low cost para Ítaca, mas aborrece-nos
ter que fazer as malas. Vamos pôr a aquecer uma saqueta
de pipocas no micro-ondas, alugar um filme e vê-lo em casa.
Quanto a planos para o futuro estamos sem ideias,
deixem uma lista com instruções
que quando der nós logo tratamos do recado.

Como se vê,
cheguei aqui como tantos outros e para escrever isto
estive umas horas fixo, imóvel,
a ver um bicho sentado, bebendo da minha sombra e
arrancando as pétalas da minha voz. Só tive que esperar
enquanto as palavras se chamavam umas às outras.
Viro agora o quarto do avesso em busca de alguma imagem
que tenha ficado esquecida, qualquer gás
que me sirva para não dar já este esforço
como perdido. Entretanto a solidão torna-se vingativa,
vira-me a mim do avesso e aos poucos já não sei distinguir
uma boa saída de uma metáfora cataléptica.
Sinto-me cansado, quero terminar e então

mais ou menos aqui
estatela-se o grito que se atirou lá de cima.

1 comentário:

dama disse...

bolas, há aqui tantas boas saídas que fazem pena as metáforas catalépticas, e embora possas dizer que é mesmo assim, eu que sou leitora penso que não precisava de saber. Isto é: um pouco de revisão, talvez. Isto porque admiro muito o teu trabalho. Por outro lado, se calhar no teu caso com demasiada revisão escorregava o menino com a água do banho. Continua.