Em cada quarto sente-se um arrepio visceralEm cada quarto
o mundo treme
Antonin Artaud
e vozes potáveis de anjos descalços, sangrando
sobre os pedaços de vidro da nossa falta
de imaginação. Tu
sorves ruidosamente uma sopa de leituras
e desentendimentos, ecos vazios
e a fantochada referencial que te serve de incêndio
para esconder no rosto essa plena
rebentação de acne. E estás
como tantos
dragando o fundo de uma inocência irrecuperável,
todos tão aflitos, mordendo-se a si mesmos enquanto
os dedos frenéticos
apertam o botão da fotocopiadora.
Perdoa-me se não acredito nisso, se não me comove, nem me assombra
essa sobredosagem de ego – como se alucinasses
lambendo a própria pele, num sucessivo flirt com o espelho
que tens sobre a cama, rebolando nos teus lençóis de seda,
acariciando o reflexo, fazendo-lhe juras de amor eterno.
Não posso deixar de ver como retocas
a maquilhagem e ensaias essa pose,
vejo ainda as fotografias que tiras
e deixas em sites pornográficos esperando
que te cobicem esse indefinido sexo. Sei que te julgas
a última das princesas na linhagem de Sião
e que supões ter presa na garganta
a mais doce e venenosa das maçãs.
A tal que todos os homens
gostariam de trincar, apunhalando Deus pelas costas,
antes de descansarem sobre a versão final
das suas obras poéticas.
Aquilo que esqueces é que em cada quarto
o mundo nasce de novo, há um florescimento
e uma morte inconstante até arcanjos e demónios
negociarem tréguas e nos deixarem a sós.
Depois ficamos por nossa conta. Ora
o meu coração não é uma estante, não cita os clássicos
por obrigação
e nem sequer tem grande fascínio pelos mais comuns
tiques solitários. A minha noção de poema
enrola-se à volta da esperança
de que um dia, não sei como, nem com que pretexto,
também eu hei-de amar uma pedra, ou até uma mulher.
Falo de ânsias fervendo neste limbo,
um momento tão presente que me segreda aos ouvidos
versos em desacato. Imagina (se puderes)
que escutas uma língua estranha como se a percebesses,
tremendo, rompendo-te
com o seu ritmo, a sua melodia soberba,
como um sopro de vento que te atravessa o peito.
Imagina (se puderes) uma visão esplêndida e imanente:
a luz na mão de uma sombra, assobiando
para nos chamar, cada imagem como
uma faca cravada no olho
e enfim as ilhas que nascem de um grito teu.
Estou em puro estado de lactação, tenho colónias
inteiras de ideias para amamentar, mais que fazer portanto
do que ficar siderado frente a uma perversa invenção
do que poderia ser
a beleza:
esse teu pequeno monstro mitológico
debruçado no lavatório com uma barra de sabão
esfregando do seu corpo
o teu esperma.
Como te digo, daí
nunca partiram comboios, isso é outro centro de congressos
onde os engravatados se juntam para debater
a fenomenologia de seja o que for,
contando que haja um palanque
e tenham cobertura no jornal das nove.
Por mim prefiro o meu quarto ou algum café
onde me seja fácil estar umas horas indeciso,
suspeitando dos meus dedos
e com a boca suturada. É aqui que espero
enquanto não chega sorrindo um novo desejo,
um súbito desejo que me abra os lábios
e meta conversa comigo.
2 comentários:
concordo com isso.
ainda e sempre, o melhor ferreiro
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