Antes que anoiteça há-de florir-te
uma rosa entre os lábios, os espinhos atravessados
na garganta aliviando-se na dor dessa cabeça tenebrosa,
deslumbrada de momento com o corpo
de um rapaz delicado, dando passinhos entre as mesas
em direcção à saída. E tu vais escrever
que era um anjo, embora provavelmente
fosse só um homossexual.
Passou-se um mês desde a última vez que a viste
e estes versos continuam a ser os mais fáceis,
largados assim
com restos desta e de outras cidades e gestos líquidos,
terminais. A caneta do crime pousada
entre as folhas e os pontos de fractura da voz,
uma ausência mansa que se bebe
com duas pedras de gelo e a sensação
de que já não precisas ter cuidado com o que dizes.
Deste uns trocos por outra edição esgotada
na Letra Livre, geres o tempo que ainda tens
enquanto elaboras a tua
e depois de algumas canções mais desastradas,
aparece a Fiona Apple, tranquila a preto e branco,
sentada a um canto do poema
com uns headphones enormes nos ouvidos,
a adormecer-se cantando: nothing’s
gonna change my world…
Outra mija e retornas com o fecho aberto
e um sexo tipo coisa sem importância. Vais dizer
que está a ficar tarde enquanto te despedes
da sombra que teceste a tarde toda. E, se ao saíres
começar a chover, talvez compres por cinco euros
um chapéu de chuva ao marroquino que os vende
na esquina, ou talvez te saiba melhor
levar com ela nos próximos quinze minutos, daqui
até à estação da Baixa/Chiado.
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