Aos dezoito anos, alguém lhe ofereceu uma camisa muito cara, com pássaros azuis de algodão, aves-do-paraíso, que ela tratou de embrulhar num papel cremoso e guardar numa gaveta aleatória. Falou-me disso e de como um dia, ao abrir a gaveta, os pássaros voaram nas traças que, em pequenos círculos ocos, se alimentavam das suas penas exóticas de países longínquos, onde a chuva vivifica aos rostos dos homens e a lama não tem cor mas canta.
Também os gestos lhe foram acompanhando as contrariedades da vontade: primeiro, um dedo leitoso era içado por um braço erecto, depois, o punho fechou-se amarelo em flores de noite e agora as mãos em forma de telhado pousam inseguras sobre o coração disposto nos nós da mesa de carvalho.
Este ano recebeu um baton vermelho com que sangra a boca todas as manhãs. Imagino-a todas as noites a limpar-se, a despir o sangue e a descartá-lo num algodão secretamente contaminado pelo musgo das próprias mãos. Vejo-a descolorar-se nas cores dos acessórios que a formam, despindo-se e vestindo-se de si mesma. Vejo esta criança de inevitáveis cabelos brancos, que corre até à loja dos doces, que me encontra nos espelhos desfolhando rebuçados de lata contra o vento que sopra nas velas.
Também os gestos lhe foram acompanhando as contrariedades da vontade: primeiro, um dedo leitoso era içado por um braço erecto, depois, o punho fechou-se amarelo em flores de noite e agora as mãos em forma de telhado pousam inseguras sobre o coração disposto nos nós da mesa de carvalho.
Este ano recebeu um baton vermelho com que sangra a boca todas as manhãs. Imagino-a todas as noites a limpar-se, a despir o sangue e a descartá-lo num algodão secretamente contaminado pelo musgo das próprias mãos. Vejo-a descolorar-se nas cores dos acessórios que a formam, despindo-se e vestindo-se de si mesma. Vejo esta criança de inevitáveis cabelos brancos, que corre até à loja dos doces, que me encontra nos espelhos desfolhando rebuçados de lata contra o vento que sopra nas velas.
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