segunda-feira, setembro 01, 2008

Numa biblioteca

(Versão de um poema de Zbigniew Herbert)

Uma rapariga loura está inclinada sobre um poema. Com o bisturi
de um lápis afiado transfere as palavras para uma folha branca e
converte-as em acentos, cadências, cesuras. O lamento de um poeta
caído assemelha-se agora a uma salamandra devorada por formigas.

Quando o levámos sob o fogo das metralhadoras eu pensei que o seu
corpo ainda cálido ressuscitaria nas palavras. Agora que vejo a morte
das palavras, sei que não há limites para o declínio. Tudo o que
deixaremos atrás de nós sobre a terra escura serão sílabas dispersas.
Acentos sobre o pó e o nada.

- José Miguel Silva

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