Aqui estou
apagado
calcado pelo pé
do sapato mais óbvio:
esquecimento. Se ao menos
a mão que esgana a cinza
me encontrasse, floriria
na madrugada escura
dos enganos. Mas quem
trocará por mim
os olhos, deixará
do vento a vinda
e o veneno
se já me cala o tempo
o breve susto?
De que vale dar
se não doer
a cabeça contra
a porta velha? Ainda
trago os pássaros beijando
a pequena veia do destino
e já escuro desce
o som de bichos alucinados.
Mentira do pecado
ou antes rosa, a vulnerável
rosa dos espinhos?
Como deixaste abrir
em teu regaço um punhado
de pétalas, enxame
de vespas bêbadas, como
pudeste alimentar
as fontes e os versos
cuidando das amoras
como de pêssegos indecentes?
Aprende, minha alma,
o caminho dos regressos
onde sempre o sexo
é um cão
com os olhos trespassados.
Descia a tempestade
como quem vai
comprar cigarros ao outro
lado da vida. La ia
de mãos nos bolsos de alguma
inclinação. Subia
para os comboios na estação
mais fria, lia
sobretudo nobre
azul e poesia.
A cantora velha
apodreceu
encostada à jukebox. Só mesmo
o dono da taberna
atende àquela luz fechada
sobre os compassos da espera
e o poeta
cujas lágrimas insiste em
embebedar
arrasta pela mesa a letra morta.
Se estiver aí, de mãos atadas
ao tempo, não me queiras
encontrar. Eu sei-te
chorando as minhas lágrimas, cuspindo
os estourados versos do instante. Palavras
por abrir e nenhum bem, guardados
ossos de ninguém.
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