Saquei uns álbuns hoje e fui aos caixotes lá abaixo,
à procura de cd’s virgens, mas acabei por dar
com algumas cassetes velhas com melodias na companhia
de rimas parvas e vergonhas, obrigações da memória,
coisas que ficam à espera que as deitemos fora.
Mas nós agarramo-nos a elas, ou deixamo-las ficar
como se fossem ainda nossas. Vou lá
cada vez por menos, tiro alguém de uma pilha
de livros e vidas riscando enganos, leio um pouco,
oiço músicas de que já gostei
e sinto outra vez que somos todos
odiados pelo tempo.
Sob a luz amolecida do candeeiro,
um cigarro ajuda a empurrar algumas sílabas
de dor desbotada para este jogo formal
onde me abandono – estou certo
que já te falei disto, da sensação de que estou
a escrever eu mesmo a minha tristeza
e que só não volto atrás porque a alternativa
seria apostar de novo em ti ou em alguém
como tu.
Não quero despir-me mais nem ficar noites
inteiras a suportar incensos e intermináveis
conversas de cama a seguir a ter sexo.
Ao amor e aos seus epigramas prefiro estes vagos
sentidos literais e mesmo os reinados da melancolia,
com as suas figuras de ferro e latão, pequenas cidades
que começam onde os sonhos acabam,
ruas onde brincam crianças podres
e onde é uma morte discreta a que nos aconchega
antes de nos ceifar.
Nunca mais ouvi rádio, estou farto dos discos
mais pedidos, das declarações de alegria saloia
ou agonia escandalosa. Agora negoceio eu
as armas que me ferem e já não fico pelos lugares
mais comuns a pedir que me atinjam à queima-roupa.
A minha auto-biografia hoje é uma estranha playlist
e parece-me que se não posso ser feliz, ao menos
vivo uma infelicidade bastante exigente.
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