todos los hombres son monumentos de mi ruina
Leopoldo María Panero
Ao entardecer transitas num vagar quase mecânico,
o olhar aos tropeções, saqueando detalhes
a cada passo, devolvendo-os ao lodo recorrente
do que sentes ou deixas de sentir. Por um momento
suspendes todas as certezas para deixar atravessar-te
um corpo beijado pelo bronze, tão quente
e novamente distante, arrefecendo até desaparecer.
Recapitulando, regressas à vária desordem
que te acompanha, vês os contornos em néon
de snack bares, pastelarias e maus restaurantes
– a fraca escolha que nos faz mais felizes;
na divisão entre os dois sentidos da estrada,
a espaços tão curtos, as palmeiras atrofiadas
destes tristes trópicos. E mesmo aqui, tão perto, o mar
não passa de uma longa linha azul
parada no meio de um poema deplorável, sem barcos,
escrito num brusco compasso enquanto esperas
que o mundo acabe contigo.
Ainda guardas restos de esperanças,
sabes falsificar tanto mais, mas não percebes
se a uma hora destas estás só
porque assim preferes ou se é a vida que
– na falta de uma expressão mais poética –
é como já se disse, uma bela merda.
1 comentário:
Muita bom mesmo.
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