A saudade é um passatempo reles.
Luis Alberto de Cuenca
Depois de uma tarde que ficou a marcar
as páginas da Poesia Espanhola de Agora, engoli um bife
com arroz e algum legume que me puseram no prato.
Neste momento, já com o jantar tomado,
eu e um ocasional vizinho fumamos lado a lado
em silêncio, debruçados no terraço, inermes,
deixando que nos agridam músicas tocadas ao vivo
aqui por baixo – Riviera Bar, na principal avenida
de Quarteira (já que estamos numa de sermos
muito precisos na anotação dos factos) –,
para uma plateia que debaixo de uma luz alaranjada
enche os pulmões e acompanha
quando chegamos ao refrão desses invariáveis temas
a que nenhum de nós, mal ou pior, consegue escapar.
É o amor e o seu lixo sentimental, golpes baixos
que derrubam esta involuntária condição além do hálito
podre e arrasador que murmura estes versos
e sorri com o peso dos defeitos que nos povoam
por dentro e por fora.
Estamos aqui todos, juntos de algum modo,
no resguardo de uma estação quente que tira mais lucro
por nenhum de nós entender aquilo que quer
e por o desejo ser um compromisso inadiável
que se vem ocupar de todos os corpos.
Mesmo solteiros e cínicos, recatados entre absurdos
e pequenas doses de desencanto, secretamente
esperamos sempre um novo afago e um retrocesso
que conquiste de volta alguma da nossa virgindade,
aquele rasgo de loucura amante e vontade de sofrer.
Um coração moribundo não nos serve de nada,
é um desconsolo absoluto, antecipando a morte
por cima de gestos evasivos, propagando o desespero,
a solidão, a doença e finalmente o silêncio
– a única verdade que nos resta.
Seria bom se chovesse. Por nenhuma razão, esta noite,
apetece-me andar à chuva.
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