domingo, agosto 31, 2008

Pagar pouco

Para o Diogo Vaz Pinto, na esperança de que ele ganhe juízo e diga: cum chavasco, está do catrino

III

há dois tipos de valor nos artefactos: o ficcionado e
o outro de que nunca ouvi falar. Dá-lhes um só tom
de consistência ou realidade e eles desfazer-se-ão
em pó.

talvez por isso tudo quanto habitamos permaneça
irreal, como a névoa pintada de bistre dos retratos
de severos coronéis e impantes bigodes, cujo sangue
e defeitos connosco transportamos lepidamente;
talvez por isso as margens de páginas dobradas,
ou as flores e os recortes e os apontamentos a não esquecer
sirvam, não para marcar passagens de interesse ido,
antes para as preservar do próprio interesse que é fugaz.
Inútil. O que resta da intenção é ela mesma, sozinha,
o que significa, não me digam, que a intenção falhou.
Restam porém amostras de perfume,
fotografias de belas mulheres com volumosos penteados,
(a nossa mãe quando não era nem mãe nem nossa)
com versos desenhados à pressa junto ao recorte
semelhante ao dos selos. E damo-nos por satisfeitos.

os prestamistas são filósofos positivistas
que correram bem e talvez, talvez por isso
não ofereçam mais do que quase nada
por isto
candelabros, candeias, lâmpadas de gás
sob o quais se liam as histórias trágico-marítimas
hoje em versão sépia
mas ainda trágicas e marítimas,
cada vez mais trágicas cada vez mais marítimas
como o registo fotográfico (e a foto onde está?)
do aquário com o tamanho de uma casa
fundado por certo tio com tanto de remoto
quanto de mareante na reforma, ou cismático
proprietário que matinalmente sem falha
lançava dois baldes de sal na água turva
enquanto soltava imprecações dirigidas aos da proa
e gingava como todo o marinheiro deve gingar
no fim, pescava 2 dos 4 úteis habitantes do aquário;
depois do fim, deitava os ossos e esperava pelo dia,
pela repetição em diferido de todo o belo processo.
Dele restam hoje as flores do jazigo,
do tio nada resta.

os agiotas sabem manter a bolsa fechada, não largar
um cêntimo às inutilidades que nos enchem a casa
e os álbuns numa confusão de canas-de-pesca e missais,
peles de leopardo e taças do concurso O melhor vinho:
pelo primeiro par se recebia o segundo, e sobre espingardas
nada diremos. Em vez delas havia a inconfessada esperança
na fragilidade das tábuas das escadas ou na conveniência do
globo fora de órbita que ensinava à geografia indecisa
das desavenças matrimoniais que um candeeiro partido
(em conjunto com as separações temporária na casa dos sogros)
não é mais do que a tabela de preço da má pontaria.

eis a memória: candeeiros partidos, registos oficiosos
das nossas únicas heranças: o erro, a má pontaria, o erro.
não podes pôr um preço na memória
mas se o fizeres, sê sensato, dá pouco.

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